Quiz tambem verificar a navigabilidade do Aroangoa Grande, para o que desci o seu curso desde a aringa de Chipore até á povoação de Chamboméla, n'uma extensão de 70 kilometros, achando sempre uma profundidade de agua de 2 a 4 metros; mas soube que era navegavel muito mais para montante, pois encontrei duas embarcações de caçadores do Zumbo, que desciam da embocadura do Locusi. Podemos pois contar com a completa navigabilidade do grande rio, para lanchas de pouco calado de agua, até ao Locusi, por isso que os rapidos que ficam perto da embocadura do Lussemfoa têem sido já transpostos, mesmo na estação secca.

Estavam terminados os trabalhos que eu podia realisar nas condições em que o tratado de 20 de agosto collocára a expedição; resolvi pois voltar ao Mpesene para me despedir d'aquelle chefe, assegurando-o do meu futuro regresso ás suas terras, e retirei para Tete acompanhado pelo sr. tenente Solla.

Deixei, porém, os meus caçadores nas terras do chefe zulo, sob o commando de um dos seus capitães; e o estabelecimento ficou sem alteração, confiado á guarda do regulo, que durante tantos annos me tem dado constantes provas da sua inalteravel fidelidade.

Procurarei agora resumir em breves palavras a enumeração dos resultados praticos alcançados, tanto por mim, antes de me ser confiada a missão official com que o governador geral de Moçambique me honrou, como pela propria expedição de que eu fui chefe.{15}

1.º Tornaram-se conhecidos vastissimos terrenos que eram completamente ignorados e nem mesmo se achavam representados nas cartas mais modernas; taes são os que marginam o Aroangoa entre a embocadura do Lucusi (por 12°,40' de latitude sul) e as proximidades da foz do Lussemfoa (perto de 15° de latitude sul), e para alem a noroeste até aos montes Muchinga.

Áquem do Aroangoa estenderam-se as explorações para norte e nordeste até ao monte Casengo, terras do Muassa, por 13° latitude sul, e já na vertente do Nyassa.

Póde dizer-se que nos terrenos limitados pelo Aroangoa, o parallelo de 12°,30', e a linha divisoria que separa as aguas do Nyassa e Chire das do Zambeze, apenas a expedição deixou de visitar a Macanga e alguns dos terrenos marginaes d'este ultimo rio, que, por serem prazos da corôa demasiadamente conhecidos, não exigiam nova exploração.

2.º N'esta vastissima extensão de territorio reconheceram e acceitaram a influencia portugueza todos os grandes chefes; quer sejam zulus, como Mpesene; maraves, como Muassa, Chanquaniquire e Undi; sengas, como Chirupe, Lundo, Sopa e Massengo; ocundas, como Sandué e Marrama; uizas, como Chipore, Pandica, Iumba e Cacumbe; e vambomgumias, como Saïd-Niendûa e Chamboméla. Numerosos documentos, tratados de soberania, ou simples contratos de concessão, attestam a natureza das relações estabelecidas; d'elles foram em tempo opportuno enviadas copias ao governador de Moçambique e de certo tambem ao ministerio da marinha e ultramar.

3.º Nem só esses documentos attestam a influencia e prestigio que o nome portuguez adquiriu recentemente na Zambezia septentrional; podem servir-lhe de contraprova numerosas cartas que recebi e conservo em meu poder, com valiosos offerecimentos, para o caso em que eu quizesse usar da influencia adquirida sobre os regulos em beneficio, quer da African Lakes Company, hoje absorvida pela South Africa, quer de uma empreza rival, embora da mesma nacionalidade, a Central African Company.

4.º Lograram os trabalhos da expedição evitar que diversas expedições inglezas, dirigidas por Alfred Sharpe e Thomson, conseguissem attrahir aos seus interesses tanto o chefe zulu{16} Mpesene, como o marave Muassa; pois tanto um como o outro provaram reconhecer o dominio portuguez, fazendo tratados e enviando embaixadas a Tete. O mesmo succedeu nas margens do Aroangoa.