Foi por esta occasião da minha estada em Tete que me encontrei com os srs. Rankins e Bowler, agentes da British Central Africa Co., que me propozeram entrar ao serviço d'aquella sociedade, e offereceram comprar-me as concessões que Mpesene havia feito.

Comquanto eu recusasse aquelles offerecimentos, serviram-me elles para eu ter conhecimento das formulas de concessões que os agentes da companhia andavam procurando alcançar dos regulos indigenas, e poder assim contrapor aos documentos que elles invocassem outros de igual teor.

Resolvido a voltar para os territorios da Maravia e Mpesene,{13} procurei antes d'isso reconhecer a navigabilidade do Zambeze para montante de Tete, conseguindo chegar a Massanangoe, logar que fica entre o ponto mais alto a que chegou o vapor Marave e o que foi alcançado pelo Mac-Robert, de Livingstone. Continuei depois a viagem pela margem direita do Zambeze até uns 15 kilometros a montante da embocadura de Luya, onde atravessei o Zambeze, dirigindo-me para a residencia do chefe Unde, na serra Baaze.

Foi no dia da passagem que recebi do governador de Tete a communicação de que estava assignado o tratado de 20 de agosto, e portanto que se devia considerar perdido para Portugal todo o territorio cuja posse a expedição do meu commando alcançára.

Não desanimei comtudo, esperando que algum resultado se podesse ainda tirar das concessões de caracter particular ou commercial que tinhamos podido obter anteriormente, tendo sempre o cuidado de resalvar a possibilidade de que a soberania portugueza ali se restabelecesse.

Foi n'este intuito que eu alcancei de Unde, soberano da Maravia oriental, a concessão, que me assegura o direito exclusivo de exercer a industria mineira, a agricultura e o commercio nas suas terras, obrigando-se tambem a reconhecer o protectorado da nação europea que eu lhe designar.

Esta concessão foi formulada nos termos em que eu sabia costumarem ser redigidas as concessões similhantes para a companhia ingleza da Africa central.

De volta ás terras do Mpesene obtive tambem d'elle um similhante contrato de concessão; mas restava-me ainda fazer confirmar pelos chefes das margens do Aroangoa as concessões verbaes que me haviam feito por occasião da minha primeira viagem em que travára relações com elles, relações extremamente amigaveis que nunca se tinham interrompido, porque os meus caçadores continuavam a visital-os amiudadas vezes.

Firmaram-se, pois, convenções successivas com os chefes da Senga, Ocunda, Uiza e Vambomgumia, isto é, com os chefes Sandué, Marrama, Chipore, Pandica, Iumba, Cucumbe, Saïd-Niendua, Chamboméla, Lundo, Chirupe, Satsherima, Massengo, Sôpa, sendo nós recebidos por toda a parte com grande enthusiasmo,{14} tanto mais lisonjeiro quanto a expedição ingleza dirigida por Thomson, por conta da companhia South Africa, tivera de retirar sem ter obtido em todos aquelles territorios uma só concessão, pois o unico documento que obteve foi firmado por um chefe local, que, vassallo de Chipore, não tinha auctoridade para fazer concessões sem auctorisação de seu suzerano. Por toda a parte nos declararam unanimemente os chefes, os grandes e os povos, que sempre tinham sido portuguezes e não reconheciam outra auctoridade que não fosse a do governo portuguez.

Nos documentos annexos ao relatorio da expedição se póde ver o teor dos convenios que obtive.