Depois de dez dias de demora no meu acampamento do Matengulene, tendo ouvido que os inglezes faziam activas diligencias para attrahir a si o poderoso regulo Muassa, tão importante como o proprio Mpesene, resolvi saír para as suas terras em 20 de junho.

A chegada do viajante inglez A. Sharpe, quando eu me dispunha a partir, causou-me alguma demora, por isso que se queixava de ter sido atacado nas terras de Mpesene pelos landins, e me pedia para lhe alcançar a restituição das fazendas; julguei conveniente attender á reclamação e fiz-lhe devolver o que os landins lhe tinham tirado, accedendo tambem ao pedido que me fez para ir na minha companhia ás terras do Muassa. Afigurava-se-me ser este um excellente meio de lhe provar qual era ali o prestigio e influencia da expedição do meu commando.

Partimos juntos; chegados, porém, ao territorio do Muassa, o sr. Sharpe separou-se de nós no intuito de subtrahir á influencia portugueza o poderoso chefe marave. Não conseguiu, porém, o seu intento, pois foi obrigado a saír sem demora d'aquellas terras, e deveu á intervenção directa do proprio regulo o saír com vida. Seria demasiadamente extensa a narração circumstanciada dos factos que então se deram, tanto menos necessaria que se encontram minuciosamente expostos no relatorio da expedição.

Bem recebidos pelo Muassa, demorámo-nos ali alguns dias, obtendo do chefe a promessa de que faria comnosco um tratado quando regressassemos de Chipeta, que eu tambem queria visitar, no intuito de cruzar o Bua ainda mais perto da sua embocadura, e examinar melhor as condições de navigabilidade do rio, e tambem para ver se podia alcançar as terras de Chuere, importante chefe landim que reside nas margens do Lintipe.

Escolhi para primeira estação um posto fortificado que os meus caçadores haviam construido seis annos antes e ainda occupavam, proximo da povoação do chefe de Chipeta, Zoôle. Infelizmente encontrámos os caçadores e a importante colonia portugueza que os acompanhava em muito más relações com o chefe, correndo mesmo grande risco de ser por elle atacada. Alguns caçadores tinham perecido recentemente, victimas de{12} ataques traiçoeiros que lhes tinham dirigido; chegavamos pois a tempo para salvar os restantes e attender ao seu desejo de que os fizessemos passar-para o territorio de Muassa.

Como não tinha consideraveis forças á minha disposição, julguei arriscado intentar uma guerra, cujo resultado seria mais que problematico, e regressei a Muassa, levando commigo toda a colonia portugueza, umas 150 pessoas, contando mulheres e creanças.

Foi por occasião d'esta minha segunda visita que ultimei com aquelle chefe o tratado de 10 de junho, em que o Muassa, na presença de todos os seus grandes e parentes, reconhece o protectorado portuguez e arvora a bandeira portugueza, resolvendo tambem mandar uma embaixada a Tete, a fim de cenfirmar ali, perante as auctoridades locaes, a sua obediencia e fidelidade.

No intuito de acompanhar esta embaixada, e uma grande remessa de marfim que o Muassa envia para ser vendido em Tete, dispuz-me a partir para o Mpesene com 400 subditos do Muassa.

Surgiram, porém, graves difficuldades por parte do Mpesene, que não queria deixar passar a gente do Muassa; vencida, porém, a reluctancia d'aquelle, parti no fim do mez de julho para Tete, onde aproveitei a occasião para fazer ratificar o tratado com o Muassa.

Ainda antes de chegar á capital do districto recebêra eu uma carta do governador geral Neves Ferreira, na qual s. ex.a se mostrava muito satisfeito com o resultado da expedição, e me avisava de ter dado ordem para que fossem postos os necessarios recursos á minha disposição.