Verificámos serem muito boas as condições locaes, pois o clima é sensivelmente o mesmo de Matengulene; não haverá, portanto, difficuldades para a colonisação europêa, que em breve poderá desenvolver variadas culturas.
Os landins indicaram-nos ainda muitos outros logares onde havia oiro, e entre elles uma serra, Chifumbazi, ao sul do Missale e no caminho do Mano, onde o precioso metal se encontra no pincaro de uma elevada montanha; mas a falta de mantimentos obrigou-nos a retroceder sem a visitar.
Pensando na futura exploração d'aquelles territorios procurára eu um caminho de facil percurso por onde se abrisse communicação para as minas, quando vim a saber pelos landins que o rio Bua era navegavel no tempo das chuvas, indo por elle as almandias até ao Nyassa; julguei portanto conveniente verificar a exactidão d'aquella noticia, e parti na direcção do rio.
Percorridos cerca de 30 kilometros, chegámos á margem do Bua, perto da serra Mechinge, isto é, perto da sua origem, e seguimos rio abaixo ao longo da margem esquerda, mandando fazer repetidas sondagens, que nos davam sempre altura de agua superior á de um homem, durante dia e meio de viagem, até chegar á aldeia do Mambo de Chôoco, tributario de Mpesene. Do proprio Mambo soubemos que o rio era facilmente navegavel, o que eu mesmo tive occasião de verificar mais uma vez atravessando-o uns 80 kilometros a jusante.{10}
No regresso a Mpesene aproveitámos ainda a occasião para visitar a residencia de Mocanda, antigo senhor de todas aquellas terras, que fôra desapossado d'ellas pelos zulus, e hoje se encontra sob a protecção do Muassa.
Julgando conveniente conhecer exactamente os cursos dos rios Lutembue, Lucusi e Sandire, por estarem erradamente traçados nas diversas cartas que eu possuia, parti em principio de fevereiro de 1890 para os ir explorar, aproveitando o ensejo para entrar em relações com o chefe marave Mpanda, tributario de Mpesene. Consegui fixar exactamente o curso d'aquelles rios, verificando ser o Lutembue affluente do Sandire, e este do Aroangoa, bem como o Lucusi (Lukushi das cartas inglezas).
Perfeitamente acolhido por Mpanda, deixei-lhe, a seu pedido, alguns caçadores, obtendo a promessa de que para o futuro não exigiria o «dente da terra».
Já ao tempo da nossa viagem ao Missale, escasseavam os recursos da expedição, e mal tinhamos com que alimentar-nos; ao regressar, porém, de Mpanda, a situação tornava-se insustentavel, e era preciso angariar novos fornecimentos com que podessemos comprar mantimentos. Por vezes tinhamos instado para que nos soccorressem, mas o auxilio pedido era-nos constantemente recusado, com o fundamento de não haver auctorisação do governo geral para nol-o enviar; por isso vi-me obrigado a partir para Tete.
Ao despedir-me de Mpesene, resolveu o regulo enviar uma embaixada ao governador de Tete para o comprimentar. Não foi esta a unica prova de consideração que recebemos; os quatro filhos de Mpesene mandaram-me cada um d'elles um boi para o caminho, e de outros amigos poderosos recebi presentes de cabras e ovelhas.
Chegado a Tete em 11 de março de 1890, tive o desgosto de me serem recusados, pelo governador do districto, todos os recursos, que eu pedia para a continuação dos trabalhos da expedição; escrevi logo ao governador geral, então o sr. conselheiro Neves Ferreira, mas, sem esperar a resposta de s. ex.a, resolvi partir novamente para o Mpesene, levando para o reabastecimento da expedição uma factura de mercadorias comprada á minha custa.{11}