Construimos por isso uma vasta casa de habitação para os europeus, um quartel para 200 caçadores indigenas, e numerosas casas tanto para os capitães como para os brancos que por ali passassem; completavam a nossa installação uma boa cozinha, e um vasto jardim, onde cultivavamos os legumes europeus: couves, alfaces, ervilhas, batatas, nabos, varias qualidades de feijão, etc.{8}

Enormes rebanhos de gado, vastos milharaes de excellentes qualidades, abundantissimo leite e optima manteiga, asseguravam á expedição uma facil e variada alimentação, que raras vezes será possivel igualar em terras africanas muito mais civilisadas.

Um clima admiravel, vastissimas planicies limitadas por elevadas montanhas, aguas abundantes, frescas e purissimas, pastagens que dispensam toda a cultura, e que asseguram a faculdade de alimentar innumeros rebanhos, tudo contribue para tornar o paiz do Mpesene extremamente apto para a colonisação europea, que desde logo encontraria nos indigenas o auxilio indispensavel e uma intelligente collaboração.

A raça zulu, pura aqui de toda a mescla, é certamente a mais elevada e nobre das que se encontram na Africa meridional; selvagem, é ella de certo, cruel por vezes, como todas as raças guerreiras; mas nobre tambem como todas as raças que têem a consciencia da propria superioridade.

É certamente com os grandes centros de população que offerecem os zulus de Mpesene, e com os recursos que elles crearam, com os seus gados e variadas provisões, que deveremos contar para repovoar e explorar os vastos territorios que se estendem para o sul quasi até ao Zambeze; o antigo paiz Marave, cuja riqueza foi tão celebrada outr'ora hoje devastado pelas incursões dos zulus a que a civilisação europêa não tentára nunca por um dique, e cuja energia, prejudicial quando abandonados ás impulsões dos seus instinctos selvagens, péde ser tão util desde que os dirija superiormente a influencia europêa que elles acceitam e acolhem com tão favoraveis disposições.

Em fins de outubro de 1889 partia a expedição do meu commando para explorar as terras do Missale, tão celebradas pelas suas antigas minas, e que desde tanto tempo não haviam sido visitadas pelos portuguezes.

É certo que o sr. coronel Paiva de Andrada tentára visital-as ha alguns annos, porém não o conseguira por causa da opposição que encontrou nos landins do Mpesene, os mesmos que agora nos acompanhavam e auxiliavam.

A primeira difficuldade que se me apresentava era a incerteza do logar occupado pelas antigas minas, por isso que as{9} povoações, arrasadas pelos zulus, tinham desapparecido, e crescêra sobre ellas uma densa mata.

Alguns dos meus caçadores, porém, guiados por indicação que eu alcançára dos landins, ácerca da existencia de poços e de ali ter havido brancos, lograram descubrir signaes indiscutiveis da lavra das minas, encontrando mesmo fragmentos de varias ferramentas e vestigios de grandes e importantes povoações.

O terreno está completamente abandonado, não existe lá nenhuma especie de cultura, nem gados, nem outros quaesquer meios de subsistencia, além dos que nos offerecia a caça; por isso apenas nos demorámos tres dias, para reconhecer a situação das antigas minas, e verificar a existencia do oiro, que obtivemos sempre, mesmo com os nossos grosseirissimos processos de lavagem.