No 1.º de dezembro de 1888 dirigia-me o sr. conselheiro Castilho um officio, em que me pedia, em nome do governo{5} portuguez e no interesse da dilatação do seu dominio, que na minha proxima viagem aos sertões de Mpesene, usasse da já poderosa influencia que eu adquirira, para convencer o regulo de que devia acceitar a soberania de Portugal.
Recommendava-me o sr. Castilho que estendesse quanto possivel para o norte o prestigio e influencia dos portuguezes, e, para dar um caracter perfeitamente official á expedição que eu era encarregado de dirigir, collocava ao meu lado, como representante da auctoridade do governo e encarregado de redigir quaesquer autos ou tratados, o sr. tenente Mesquita e Solla, secretario do governo de Tete, que ficaria residindo junto ao regulo quando eu, em virtude de negocios meus particulares, tivesse de ausentar-me.
Só em 6 de março me foi possivel partir para Cachombe, acompanhado pelo sr. tenente Mesquita e Solla, e munido das necessarias instrucções que opportunamente recebera.
Correu sem novidade a viagem de dez dias até Cachombe, porém aqui tivemos de nos demorar quatro mezes, por causa das intrigas que urdira contra nós o capitão mór da localidade, Luiz Firmino, que por todos os meios procurava impedir a visita de uma expedição áquelles ricos e vastissimos territorios.
Avisára elle o Mpesene de que nós lhe íamos fazer guerra e que devia desconfiar de nós; e o chefe landim começava a acreditar no que o capitão mór insinuava e ía reunindo contra nós grandes forças, cuja noticia nos chegava pelos maraves d'alem Zambeze.
N'estas condições julguei menos conveniente arriscar o exito da expedição e deliberei enviar ao regulo uma pequena embaixada composta de homens de confiança, conhecidos do Mpesene e habituados a tratar com elle.
Voltou a embaixada depois de ter aplanado todas as difficuldades, e acompanhada por uma outra que o Mpesene mandava encontrar-se comnosco para nos conduzir ás suas terras.
O resultado futuro da expedição afigurava-se-nos de novo auspicioso, mas eram já irremediaveis as despezas occasionadas pela demora de quatro mezes, consumidos n'uma esteril inacção, e as perdas que provinham para mim da sustentação durante esse tempo dos meus caçadores, que representavam o principal capital do meu negocio.{6}
Atravessámos finalmente o Zambeze, junto á povoação de Chacanga, a dois dias de viagem para montante das cataractas de Caborabassa.
Para não descurar os intuitos politicos da minha missão, procurei logo avistar-me com o poderoso Chanquaniquire, regulo da Maravia de oeste, territorio onde abundam as minas de oiro, de prata e de estanho, banhado pelo Zambeze, entre os rios Boosi e Luya que o limitam a oeste e leste, estendendo-se para o norte até aos montes Mefingue. Em 10 de junho de 1888 firmava-se o tratado que restabelecia a soberania portugueza na parte meridional da Maravia, de que os antigos escriptores tanto se occuparam e cuja interessantissima descripção se póde ler no livro de Gamito e Monteiro, O Muata Cazembe.