E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo organico, aos bocados.
Achava os tons e as fórmas. Descobria
Uma cabeça n'uma melancia,
E n'uns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças d'um cabello que se ageite;
E os nabos—ossos nus, da côr do leite,
E os cachos d'uvas—os rosarios d'olhos.

Ha collos, hombros, boccas, um semblante
Nas posições de certos fructos. E entre
As hortaliças, tumido, fragrante,
Como d'alguem que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, emfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céo. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E déra o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
«Não passa mais ninguem!… Se me ajudasse?!…»

Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
E, pelas duas azas a quebrar,
Nós levantámos todo aquelle peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, náquella despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam d'um excesso de virtude
Ou d'uma digestão desconhecida.

E em quanto sigo para o lado opposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
D'uma janella azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrellas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canario—que infantil chilrada!—
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja distillada.