E pittoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
D'uma desgraça alegre que me incita,
Ella apregôa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.
E como as grossas pernas d'um gigante,
Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rustica, abundante,
Duas frugaes aboboras carneiras.
CRYSTALISAÇÕES
A Bettencourt Rodrigues
Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
Vibra uma immensa claridade crua.
De cocaras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calcam de lado a lado a longa rua.
Como as elevações seccaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças d'agua, como em chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.
Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobresita.
E uns quintalorios velhos com parreiras.
Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra—que união sonora!—
Retinem alto pelo espaço fóra,
Com choques rijos, asperos, cantantes.
Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja columna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.
A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! N'uma das regueiras
Acamam-se as japonas, os colletes:
E elles descalçam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.