E n'esse rude mez, que não consente as flores,
Fundêam, como a esquadra em fria paz,
As arvores despidas. Sobrias côres!
Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
Atiram terra com as largas pás.
Eu julgo-me no Norte, ao frio—o grande agente!—
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, aguas, multidões, telhados!
Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
O ceu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagôas de brilhantes!
E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!
Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e egual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.
Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas d'aço;
E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço
E manso, tira o nivel das valletas.
Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas callosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.
Povo! No panno cru rasgado das camizas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ella soffres, bebes, agonisas:
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!
D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem sahiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada n'um casaco á russa.
D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
E a quem, á noite na plateia, attraio
Os olhos lizos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.