Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.
E tudo emfim passou, passou como uma penna,
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
E aquella doce vida, aquella vida amena,
Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!
Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
A areia em que rangia a saia roçagante,
Que foi na minha vida o ceo aurirosado,
Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
Que as ondas que formei das suas illusões
Fizeram-me enganar na minha soledade
E as azas ir abrindo ás minhas impressões.
Soltei com devoção lembranças inda escravas,
No espaço construi phantasticos castellos,
No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
E onde o luar parava os raios amarellos.
Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
Suster a minha fé, n'um veo consolador,
O teu divino olhar que as pedras amollece,
E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.
Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,
Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
E imaginei ouvir ao conversar das aves
As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.
NOITE FECHADA
(L.)
Lembras-te tu do sabbado passado,
Do passeio que démos, devagar,
Entre um saudoso gaz amarellado
E as caricias leitosas do luar?