Bem me lembro das altas ruasinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Ás janellas palravam as visinhas;
Tinham lividas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,
Ante um pesado templo com recortes;
E os cemiterios ricos, e o cypreste
Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos proximo ao sol-posto,
Mas seguiamos cheios de demoras;
Não me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cúpula da egreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa bocca viçosa de cereja,
Torcia risos com sabor amargo.

A lua dava tremulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com arvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei comtigo
N'um pateo velho que era d'um canteiro,
E onde, talvez, se faça inda o jazigo
Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,
Tua luva, teu veu, o que tu és!
Não sei que tentação é que te impelle
Os pequeninos e cançados pés.

Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
Eu por mim tinha pena dos marçanos,
Como ratos, nas gordas mercearias,
Encafunados por immensos annos!

Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
Que apparecem ao fundo d'umas minas,
E á crua luz os pallidos barbeiros
Com oleos e maneiras femininas!