Fins de semana! Que miseria em bando!
O povo folga, estupido e grisalho!
E os artistas d'officio iam passando,
Com as ferias, ralados do trabalho.
O quadro anterior, d'um que á candêa,
Ensina a filha a ler, metteu-me dó!
Gosto mais do plebeu que cambalêa,
Do bebado feliz que falla só!
De subito, na volta de uma esquina,
Sob um bico de gaz que abria em leque,
Vimos um militar, de barretina
E galões marciaes de pechisbeque,
E em quanto elle fallava ao seu namoro,
Que morava n'um predio de azulêjo,
Nos nossos labios retinio sonoro
Um vigoroso e formidavel beijo!
E assim ao meu capricho abandonada,
Errámos por travessas, por viellas,
E passámos por pé d'uma tapada
E um palacio real com sentinellas.
E eu que busco a moderna e fina arte,
Sobre a umbrosa calçada sepulchral,
Tive a rude intenção de violentar-te
Imbecilmente como um animal!
Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
Como longiquos bosques muito ermos,
Tu querias no meio da folhagem
Um ninho enorme para nós vivermos.
E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
Ó grande pomba tépida que arrulha,
Vinham batendo o macadam fremente,
As patadas sonoras da patrulha,
E atravez a immortal cidadesinha,
Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,
Em que uma negra multidão se apinha
De tecelões, de fumos, de caldeiras.
Mas a noite dormente e esbranquiçada
Era uma esteira lucida d'amor;
Ó jovial senhora perfumada,
Ó terrivel creança! Que esplendor!