E ali começaria o meu desterro!…
Lodoso o rio, e glacial, corria;
Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro
Na muralha dos caes de cantaria.
Nunca mais amarei, já que não me amas,
E é preciso, decerto, que me deixes!
Toda a maré luzida como escamas,
Como alguidar de prateados peixes.
E como é necessario que eu me afoite
A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquella noite
E andei leguas a pé, pensando n'isto.
E tu que não serás sómente minha,
Ás caricias leitosas do luar,
Recolheste-te, pallida e sósinha
Á gaiola do teu terceiro andar!
MANHANS BRUMOSAS
Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,
—Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!—
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em epoca de banhos,
E, ave de arribação, elle enche de surprezas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
As irlandezas teem soberbos desmazelos!
Ella descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquellas são maritimas, serranas,
Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracollo e applicações vermelhas;
E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,
Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,
Correm os seus desdens, como vitellos brancos.
E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.