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E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!
Foi ás cinco da tarde—ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,—nós os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase indifferente—e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão—como as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!
Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas. Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos que que me désse força, que me désse força nova,—pois que se prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos, ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo—do mesmo modo que o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se —sem saber porque…
20 de Agosto
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A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com um respiradouro em cruz;—rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á porta está um arbusto da familia dos cyprestes—um brinde ao meu querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da minha raça—funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:—Está bom o nosso amigo?… E ella inclina os pequeninos trocos, com a gravidade do cypreste:—Bem; não houve novidade em toda a noite…
É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos—o Cesario e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos, horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que se lhe não consagrasse—ao meu querido morto. Em face d'aquelle cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado desprezo da vida. O meu santo está alli,—está resignado: é tudo. Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado—o nosso querido morto impassivel!
E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario—lembram-se da voz d'elle?—pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:—«Sê natural, meu amigo; sê natural!»
Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei n'uma angustia:—«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, um arrastar de folhagem resequida—e o morto na paz da Morte!