Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora. Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na Morte como no abrigo antecipado—querido abrigo inevitavel!—a voz de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento —do soffrimento amparado e protegido…

Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás minhas amarguras,—que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que a minha angustia encontrou na sua.

Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte! Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a voz reanimadora! Vae-se na corrente,—que o sei eu! Mas tu, depois do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro da minha fraqueza! Tu bem o sabias,—forte, bom, generoso, nobre, sempre bom—e todavia sempre justo!

A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,—abrigado pela sua voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias: conseguintemente, com a suppressão do trabalho,—do pão,—com a calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera, com todas as ciladas á minha fé… Ah, perdidos em paiz de Cafres! Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova, esperando… Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da Justiça absoluta—da Justiça illuminada e serena;—espera que eu vá dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado, a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte, o seu amor!

Está alli em baixo, esperando… Eu, mensageiro triste, não saberei dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa amargura d'estes ultimos dias,—d'estas ultimas horas. As visões do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada do seu tumulo pelo Nordéste—menos frio do que a minha alma succumbida!

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Silva Pinto.

Os versos

I