Pois eu, que no deserto dos caminhos,
Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
Eu, que apartava as mansas das velhacas,
Fugia com terror dos pobresinhos!
Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
E os cegos que se apoiam sobre o moço.
Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
Ou que a poeira no suor mascarra,
Chegam das feiras a tocar guitarra,
Rolam os olhos como dois escarros!
E os pobres mettem medo! Os de marmita,
Para forrar, por anno, alguns patacos,
Entrapam-se nas mantas com buracos,
Choramingando, a voz rachada, afflicta.
Outros pedincham pelas cinco chagas;
E no poial, tirando as ligaduras,
Mostram as pernas putridas, maduras,
Com que se arrastam pelas azinhagas!
Querem viver! E picam-se nos cardos;
Correm as villas; sobem os outeiros;
E ás horas de calor, nos esterqueiros,
De roda d'elles zumbem os moscardos.
Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
Batiam ao portão com seus cajados;
E um aleijado com os pés quadrados,
Pedia-nos de cima de um jumento.
O resmungão! Que barbas! Que saccolas!
Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
Dormia as noutes por telheiros rotos,
E sustentava o burro a pão d'esmolas.
* * * * *
Ó minha loura e doce como um bolo!
Affavel hospeda na nossa casa,
Logo que a torrida cidade abraza,
Como um enorme fôrno de tijolo!