Os engenheiros encarregados da reedificação de Lisboa foram, pela sua ordem, Eugenio dos Santos, Carlos Mardel, Reinaldo Manoel[2] e Manoel Caetano. De todos estes dá noticia Jacome Ratton, um contemporaneo, nas suas Recordações[3], onde se encontram interessantes pormenores relativos á cidade de Lisboa depois do terremoto. De Eugenio dos Santos diz:

«A planta e prospecto (para a reedificação) foi dado pelo primeiro architecto da cidade, chamado Eugenio dos Santos, da escola das obras de Mafra. Nesta planta se conservaram as praças e largos quasi com as mesmas dimensoens que dantes tinhão, alargando-se, e endireitando-se as ruas que erão nimiamente estreitas e tortuosas; e nestas se assignou, quanto possivel foi, o chão de cada proprietario, para edificarem, dentro em prazos determinados, por si ou por outrem, sob pena de os perderem; prasos que se foram prorogando; por maneira que me não consta que alguem perdesse o seu terreno. A Inspecção taxou o preço de cada palmo de frontaria, conforme a situação das ruas, para que não querendo ou não podendo o proprio dono do chão edificar, podesse qualquer outro edificador comprallo á Inspecção, a qual entregava o dinheiro da compra ao dono do chão.

«Ouvi que fora o projecto de se não consentir, em rasão dos terremotos, que as casas da cidade nova tivessem mais do que lojas e dois andares; mas que em attenção ás representaçoens dos edificantes, que não podião ter interesse algum em edificar casas de tão poucos andares, veio o Governo a consentir que se edificassem de tres e agoas furtadas; e então se principiou a edificar segundo o prospecto que dera Eugenio dos Santos, consistindo em 1.^o andar de sacadas, 2.^o e 3.^o, e agoas furtadas de janelas de peito; á excepção das casas da Praça do Rocio, as quaes tem, não sei porque, no 1.^o andar janellas alternadas de sacada e de peito; o que faz com que esta praça perca huma grande parte da bellesa que podia ter. As agoas dos telhados erão recebidas em meios canaes praticados no cimo das paredes, e conduzidas á rua por canaes praticados nestas, o que dava hum ar de nobreza ás frontarias, não se vendo as biqueiras; e muito commodo aos viandantes. Este risco veio depois a alterar-se no successivo reinado, não só praticando-se 4.^{os} e 5.^{os} andares sem sacadas, ou com sacadas em todos elles, mas deixando-se cair por biqueiras as agoas á rua; e para mais depravado gosto, estabelecerão varandas, e sobre varandas nos 4.^{os} e 5.^{os} andares, cuja enxelharia he lavrada a maneira de telha e pintada da mesma côr. Parece impossivel que tal reedificação viesse á lembrança dos habitantes de huma Cidade sujeita a terremotos, e que tinha soffrido os effeitos do de 1755. He verdade que as casas construidas de madeira do 1.^o andar para cima, crescendo depois as paredes de pedra e cal, como accessorias, são hum abrigo aos desastres que podem resultar de hum terramoto, para as pessoas que se acharem dentro dellas, e não tiverem o desacordo de sahir para a rua; mas desgraçados dos que se acharem nas ruas, se o abalo derrubar as paredes; porque a enxelharia dos 4.^{os} e 5.^{os} andares não deixará nenhum vivo.

Ao primeiro risco da cidade baixa, e ruas principaes ajuntou o architecto os necessarios e utilissimos passeios; e não sei porque fatalidade deixa de os haver na maior parte das ruas de Lisboa que os podem admittir; comtudo não lhe louvo a bordadura dos colonellos, que alem da despeza, e extravagante configuração, occupão hum lugar nos passeios tirado aos viandantes, devendo só existir nas esquinas, para impedir que os carros e carroagens passem, ao voltar, por cima dos pavimentos. Mas o que he imperdoavel nesta nova reedificação, he que todas as ruas não tenhão canos, e todas as casas, cloacas, para o despejo das primeiras immundicias; he verdade que o dito architecto deo o risco dos canos que se achão em algumas ruas da cidade nova; mas tão dispendiosas pela pedra lavrada que nelles se empregou, que julgo ser esta a causa de os não haver nas mais ruas; e tão defeituosas na sua configuração que não preenchem, ou preenchem mui mal os fins para que são destinados. Primeiramente por terem pavimentos chatos subindo as paredes lateraes em angulos rectos, nos quaes se depoem as immundicias; e em segundo lugar por darem entrada ás agoas da maré, diffundindo-se nas casas hum fedor tal, que as torna quasi inhabitaveis, o que tudo se pode emendar em aquelles que de novo se fizerem: 1.^o construindo-se de tijolo, por ser mais barato, e em forma eliptica para se não estagnarem as immundicias; 2.^o ficando suas desembocaduras superiores ás agoas das enchentes do Tejo; 3.^o encanando-se-lhes as agoas dos telhados, ruas e cosinhas, para os conservar sempre lavados; providencias que se devem igualmente estender a toda a cidade velha, e sem as quaes a fedorenta cidade de Lisboa, será sempre hum manancial de molestias, a vergonha da nação, e hum objecto ascaroso pelos montões de immundicias accumuladas nas ruas, por effeito do descuido inveterado de se não varrerem, e se não tirarem com a devida regularidade, não obstante as rendas que ha destinadas para isso».

É um interessante quadro de Lisboa do seculo XVIII, antes do terremoto.
Quem o quizer conhecer completo leia o livro de Ratton.

Seguem-se considerações que por extensas não transcrevemos, mas que, com o trecho que deixamos reproduzidos, servirão para confrontar as ideias do tempo e o que Ratton indica como realisado, attribuindo-o ao executor Eugenio dos Santos, com o que na importante memoria inedita, que adeante publicamos, Manuel da Maya apresenta como plano dos diversos serviços a executar, revindicando para este engenheiro a legitima gloria de as haver preconizado e indicado aos poderes publicos.

Continuando, diz Jacome Ratton:—«Succedeo a Eugenio dos Santos hum architecto allemão (aliás hungaro) chamado Carlos Mardel, o qual seguiu o mesmo plano do seu antecessor para a reedificação da cidade. Ignoro se foi por algum destes, ou por ambos suggerida a ideia de se construir o Palacio Real no sitio de Campo de Ourique; mas sei que foi no tempo de Mardel que se levantou a planta, e se collocarão os marcos, dos quaes ainda existem alguns junto á Igreja de St. Isabel, Fonte Santa, Prazeres e S. João dos bem casados. Muito tempo se trabalhou nos desenhos, e cuido que ainda existem na casa do risco. Entrava tambem no projecto fazer-se navegavel o rio Alcantara para nelle entrarem os Escaleres Reaes até o Palacio; mas depois do fallecimento do sr. Rei D. José não se cuidou mais neste projecto, e depois do incendio do Palacio da Ajuda, se adoptou aquelle sitio para a construcção de hum novo Palacio».

Tambem neste particular do sitio onde se devia construir o palacio real é de interesse a leitura da referida memoria de Manuel da Maya. O livro de Jacome Ratton é hoje raro; estimarão por isso os especialistas em assuntos de engenharia, a quem este nosso trabalho é particularmente destinado, conhecer estes trechos que reproduzimos, sem terem de recorrer aos «reservados» das bibliotecas; a outros abrirá o apetite de conhecer a obra.

Segue se a informadora narrativa de Ratton:

«A Carlos Mardel succedeu Reinaldo Manoel, e deste não sei cousa notavel, a não ser o desenho e estabelecimento do passeio publico em 1764, sobre humas hortas, que alli existião, chamadas as hortas da cera, nas quaes se deitarão os entulhos das ruinas da Cidade baixa; e fui eu que dos meus viveiros da Barroca d'Alva dei todas as arvores freixos que se achão no dito passeio»…