«A Reinaldo Manoel succedeu, em architecto da Cidade e da Casa Real, Manoel Caetano, se me não engano, que ouvi ter sido canteiro, e tinha algumas luzes de desenho, sem comtudo possuir os estudos da arte de architectura, nem a disposição natural para isso, como provão as obras que dirigio como architecto; entre as quaes especificarei a Igreja da Incarnação de fronte do Loreto; obra de muito custo, mas de nenhum gosto, nem ordem alguma de architectura; a casa do Mantegueiro na rua da Horta seca, chamada pelo seu dono Domingos Mendes, Palacete; e a sua propria casa edificada no sitio que se destinou para o Erario novo, a qual era muito parecida com a torre que o tendeiro da Esperança mandara construir junto á rua da Procissão, na Cotovia de cima. Esta casa foi demolida e paga pelo Governo, ficando ao architecto os materiaes; e dando-lhe o mesmo Governo hum chão de fronte da Fabrica da seda, onde construio huma nova casa excessivamente maior do que a primeira, mas tão destituida de ordem e gosto que basta olhar para ella para se julgar do merecimento do author. Penso ter sido elle o introductor da moda de figurar andares de casas sobre telhados contra todo o senso commum. Tambem julgo ter tido parte na planta do palacio novo da Ajuda, que pouco depois se confiou aos dous architectos de profissão José da Costa e Silva, e Francisco Xavier Fabri; o primeiro Portuguez, o qual aprendeo em Roma, e deo provas do seu talento na construcção do theatro de S. Carlos em Lisboa, e na do hospital de Runna mandado construir por Sua Alteza a Serenissima Princeza do Brasil viuva: o segundo Italiano de nação, que fez a planta pela qual se construio o Porto franco; e que supponho ficou com aquella que eu fiz, de que já fallei. Tambem no Ministerio do Conde de Linhares dirigio o accrescentamento que se fez na cordoaria para accommodação de tiares de lonas, e segundo ouvi foi quem fez o risco, e dirigio a construcção do palacio do Marquez de Castello Melhor, junto ao passeio publico».

Embora se não trate de construcções militares, tem interesse estas informações de um contemporaneo que assistiu ao terremoto e á reconstrucção da cidade que, segundo elle informa, se reduzia a «hum recinto que abrangia o bairro de Alfama, bairro do Castello, Mouraria, rua nova, Rocio, bairro alto, Mocambo, Andaluz, Anjos e Remulares; toda a mais extensão que foi convertida em cidade, como campo de St.^a Clara e suas visinhanças, campo de St.^a Anna, Salitre, Cotovia de baixo e de cima, Boa Morte e Alcantara, apenas tinham algumas casas, aqui e acolá, á borda de caminhos que atravessavam por terras cultivadas».

É tradição, embora não a encontremos confirmada, que os arcabouços (gaiolas) de madeira, innovados para a construcção dos edificios, foram entre nós adoptados então para dar ás paredes maior flexibilidade e equilibrio, cabendo evidentemente aos engenheiros que trabalharam na obra da reedificação essa iniciativa. Ao engenheiro Carlos Mardel, que tão largo quinhão teve nesses trabalhos, sobretudo depois da morte do engenheiro Eugenio dos Santos e Carvalho[4], é attribuida essa innovação[5]; mas não ha, que nos conste, documento que o prove. Na importante dissertação inedita de Manuel da Maya, que adeante publicamos, relativa aos trabalhos para a reedificação de Lisboa, ha referencia a edificios de madeira e aos de pedra e cal, e se fala do «horror em [~q] se achava o publico contra edificios [~q] não fossem de simples madeira», o que parece evidente não se referir á adopção das gaiolas de madeira para a edificação; mas ás barracas de madeira que se tinham construido. Seria dessa preferencia pelas construcções de madeira, principalmente empregadas para resistir aos embates do mar, nas praias, que teria vindo originariamente, entre nós, a ideia da armação de madeira p.^a as nossas edificações, independentemente do que se passava noutros paises? E porque não? Temos geralmente tendencia para desluzirmos as nossas iniciativas proprias, querendo attribuir a sua paternidade a estrangeiros; mas em cerebros portugueses tambem germinam ideias novas, como o prova o nonio, o aerostato de Bartholomeu de Gusmão, e tantas outras. Mas tambem pode ser que fosse realmente á experiencia por Carlos Mardel adquirida na Hollanda que se devesse a innovação.

Carlos Mardel, natural da Hungria, como diz a tradição, ou de origem francesa, como suspeita o Sr. Sousa Viterbo[6], deixou o seu nome ligado aos trabalhos da reconstituição da cidade, como o ligou tambem a outras importantes obras publicas e particulares; pois que, alem de architecto das Aguas Livres, dos paços reaes e das tres ordens militares, e de varias obras religiosas, como veremos, foi medidor das fortalezas da barra, fallecendo no posto de coronel de infantaria com exercicio de engenheiro. Entre as obras notaveis que traçou estão as da reconstrucção do Real Collegio de S. Paulo de Coimbra em 1752.

[Figura: Carlos Mardel]

Em novembro de 1755 foi o engenheiro Carlos Mardel encarregado pelo Cardeal Patriarcha de Lisboa de ver o estado em que estava a Igreja de S. Bento depois do terremoto, sobre o que elle informou que «achou toda a igreja em muito bom estado, sem ter recebido damno algum e em excellente estado de servir; porem a sacristia he a peyor e incapaz de servir, e em lugar della achei hum grande refeitorio e casa de profundis diante do Refeitorio, ambas escusadas para os Padres do dito Mosteiro, as quaes são misticas ao lado da Epistola da Capella mór; e abrindo-se porta para a Igreja no mesmo lado, temos tudo o que for mister para accommodar a Patriarchal, e ainda com mais abundancia do que aonde estava antes».—Em vista disso passaram para aquella igreja os officios da Patriarchal.

Succedeu porem que sendo a informação de Carlos Mardel de 17 de novembro, no dia 19 desse mesmo mez ia o capitão engenheiro Eugenio dos Santos e Carvalho informar o Patriarcha de que, embora concordasse com o parecer do seu collega quanto á segurança do corpo e cruzeiro da referida Igreja, «se lhe fazia suspeitosa uma parede da Capella que, sendo ordinaria, se pode reparar com modica despeza».—Foi este parecer seguido; e fez-se a obra completa sob a direcção do então tenente coronel Carlos Mardel e do capitão Eugenio dos Santos[7].

Entre as curiosidades apresentadas na Exposição de Cartographia da Sociedade de Geographia, em 1903, figurava uma Planta topographica da cidade de Lisboa arruinada, e tambem segundo o novo alinhamento dos architectos Eugenio dos Santos e Carvalho e Carlos Mardel, feito por João Pedro Ribeiro. Pertence á Direcção dos Trabalhos Geodesicos[8].

[Figura: João Frederico Ludovici, Architecto-mor]

Mas embora os nomes de Eugenio dos Santos e Carvalho e Carlos Mardel, que Manuel da Maya considerava «alem de engenheiros de profissão, os primeiros architectos na architectura civil», sejam os que mais soam e mais elevado quinhão representam nesses memoraveis trabalhos herculeos, muitos foram os engenheiros militares que nelles tiveram parte sob a direcção de Manuel da Maya. Na importante Memoria d'este celebre engenheiro-mor, que em seguida publicamos, veem citados, alem dos nomes de Mardel e Eugenio dos Santos, os do capitão Elias Sebastião Pope e Pedro Gualter da Fonseca, e praticantes Francisco Pinheiro da Cunha e José Domingos Pope, como tendo sido por elle eleitos para o auxiliarem na monumental obra da reconstrucção da cidade. Reynaldo Manuel se chamava, como vimos, o engenheiro nomeado p.^a substituir Carlos Mardel nas obras da reconstrucção de Lisboa, quando este morreu em 1763. Jacome Ratton fala com encarecimento de um engenheiro militar, estrangeiro mas que muitos serviços prestou entre nós. E João Frederico Ludovici, o celebre architecto de Mafra, e que Ratton apresenta como sendo o que mais geito e arte mostrou na traça e edificação das casas particulares em Lisboa. Já tinha fallecido quando foi do terremoto; mas a cidade já se embellezara com a sua arte.