«Se pelas obras que os architectos edificão para sua propria habitação, escolhendo a localidade, e sem outra sugeição que as suas forças, se pode julgar do seu merito, diz Ratton, indicarei as que entrão neste caso, relativas aos quatro architectos do meu tempo, empregados pelo Governo. João Pedro (aliás João Frederico) Ludovici, que já era architecto no Reinado do Senhor D. João V, e o continuou a ser até depois do terremoto de 1755, construiu para sua morada aquella barraca, na calçada da Ajuda, aonde assistio Martinho de Mello e Castro, e edificou huma casa de fronte da torre de S. Roque que tem todo o ar de nobre; e creio que em razão desta obra se construiu a muralha de S. Pedro de Alcantara com o pretexto de se fazer alli hum passeio, o qual se não chegou a realizar; mas que seria bem util pelo ponto de vista que offerece. Tambem supponho que foi este architecto quem projeitou e deo o plano das obras dos arcos das aguas livres; mas se não foi elle, foi pelo menos o que as continuou. Eugenio dos Santos que deo a planta da reedificação da cidade construio humas grandes casas de cimo da calçada da Estrella, com muito má serventia para carroagens, e sem outra luz na escada que a que entra pelas sobrepostas. Carlos Mardel edificou para a sua habitação aquella casa que se acha ao lado oriental da Igreja de St.^a Isabel junto ao cemiterio, e por baixo da torre dos sinos. Manoel Caetano edificou as de que já fallei. Á vista do que todos convirão comigo que o que tinha melhor tino era João Pedro Ludovici.»
João Frederico Ludovice, o notavel architecto do convento de Mafra, era desde 11 de setembro de 1750 architecto-mór do reino com patente, soldo e graduação de brigadeiro de infantaria, na primeira plana da Côrte; nascera na Allemanha, de familia francesa, e naquelle país exercia a profissão de engenheiro militar, tendo porem vindo para Portugal chamado pelos jesuitas pela sua especial pericia de ourives, metallista; mas os seus variados talentos postos em acção entre nós lhe deram o justo galardão de se reconhecer que «á sua doutrina se devem o grande adiantamento em que se achavam as artes em Portugal[9]».
E não só em Lisboa, mas em outros pontos do país eram requeridos os serviços dos nossos engenheiros militares, quer na sua especialidade, quer noutros ramos do serviço. Assim, tendo o terremoto arrasado a villa de Setubal, foi João Alexandre de Chermont, coronel de infantaria com exercicio de engenheiro, mandado em 14 de novembro de 1755 tomar conta d'aquella villa, com jurisdição completa, para adoptar as providencias necessarias[10].
E nesse calamitoso periodo, e antes e depois, e sempre, de engenheiros militares se valeu o governo para os serviços da maior responsabilidade.
De tres engenheiros, encarregados em 1761 da demarcação das quatro leguas exclusivas do districto concedido á Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, á roda da cidade do Porto, temos noticia: são o sargento-mor de infantaria e engenheria Francisco Xavier do Rego, e os seus ajudantes, o tenente Adão Wencelao Hetsk e Francisco Pinheiro da Cunha. Por curiosidade reproduziremos adeante o resultado d'essa demarcação, que em manuscrito se conserva na Academia Real das Sciencias de Lisboa[11].
E de quantos outros não poderiamos dar aqui informação. De grande numero d'elles daremos noticia na nossa Historia da Engenharia Militar.
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Quando, das ruinas d'esse horrivel terremoto, a energica vontade do Marquês de Pombal fez erguer, alinhada, garrida e bella, a nova cidade, os engenheiros militares foram os auxiliares principaes d'essa vontade de ferro. O engenheiro-mor Manuel da Maia e os seus officiaes dirigiram e executaram as principaes obras.
Por decreto de 29 de novembro de 1755 era ordenado que «os Ministros, que se achavam encarregados da inspecção de cada um dos bairros da capital, de commum accordo com os officiaes de Infantaria com exercicio de Engenheiros, destinados para esta deligencia, fizessem logo, e sem perda de tempo, cada qual delles uma exacta discripção do respectivo bairro de que se achava encarregado, declarando-se nella distincta e separadamente a largura e comprimento de cada uma das praças, ruas, beccos e edificios publicos, que nelle se continham; e cada uma das propriedades particulares que existam nas sobreditas ruas, praças e beccos, com a especificação da frente e do fundo que a ellas pertencia, comprehendendo nessa medição os quintaes, onde os houvesse, com as elevações ou alturas de cada uma das propriedades, e com especificação das paredes que fossem ou proprias de cada edificio, ou commum a ambos os dois visinhos confrontantes».
Assim se conseguiu evitar as reclamações e pleitos que decerto depois levantariam os proprietarios com respeito aos limites das suas propriedades, sem que houvesse maneira de saber se as baseavam na verdade.