ARTIGO IV.
Modo de fazer os differentes vasos, e utensis de casa com o mesmo barro, que serve para fazer os ladrilhos.
70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros chamaõ bom barro; tira-se de Arcueil, e de Vanvres, como para o ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez.
71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ voguer.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos, e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ, as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas obras do que para outras.
72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as caldeirinhas quadradas F, fig. 10 [est. I], outras só se fazem na roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares K, fig. 11, que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os vasos de tres pés, as marmitas fig. 12, os escalfadores fig. 13, as caçarolas fig. 14, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e orelhas se põe de fóra á maõ.
73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno; tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.
Do modo de fazer os vasos na roda.
74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o torno. Quasi todos os oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça fina vidrada.