83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador, ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça, estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar novo movimento.
84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de París já naõ fazem uso da roda de ferro.
Trabalho do Oleiro sobre a roda.
85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas, mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ atelli; elles tem muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem: alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas tambem alguns saõ de páo.
86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza: porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo, mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados; com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro, faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos, etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.
87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei hum mealheiro [Est. I], fig. 19. Vou explicar como se faz esta pequena peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou pedaços: o que parece difficil de executar.
88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar, e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro; finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra, despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.
89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo, he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda; para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra he pequena, ou com hum arame se he grande.