126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo, descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve fazer o pé, e o que faz o testo.

127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, bauehoir, especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o fazer.

128 Com o instrumento de alimpar, chamado tournassin, se tira por dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso. Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas, porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ, aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes.


ARTIGO VIII.
Modo de enfornar as obras de olaria, e cozelas.

129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança, o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de fornos.

130 Da parte da bocca por detraz da Fausse-tire se arranjaõ os vasos, que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno LM, fig. 8, [est. I], que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo.

131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê fig. 9, [est. I]; mas, como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir, os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos, ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais tempo, se se trata de cozer louça de greda.


ARTIGO IX.
Descripçaõ de outra especie de forno, que usaõ os oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer suas obras.