132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado na [est. I], fig. 7, 8, e 9, tanto para cozer os ladrilhos como as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ vou agora dar.

133 A fig. 1, [est. III], representa a altura do forno, visto por fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, C D, do plano fig. 2. que he tomada rente ao nivel do forno. A, he o fogaõ ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em A, fig. 3, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno; depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até E, e o distribue por dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve ter o atiçador.[19]

134 A abobada F fig. 4. que cobre a parte superior da fornalha tem os buracos aaa, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em F fig. 2. se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos aaa, he que passa o ar quente da fornalha, A, fig. 4. para o corpo do forno G, que está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada H, fig. 4. a qual tem os buracos bbb, do mesmo modo que a abobada F; e isto mesmo se vê tambem na fig. 5. em H; e por estes buracos he, que o ar quente passa do corpo G, fig. 4. ao corpo I, aonde se põe as louças, que se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno se esquente, no corpo I, he maior o calor do que no corpo G, que ao principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto.

135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum buraco K, fig. 4. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais quatro buracos K, fig. 1. e 5. Estes cinco buracos servem para dar sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a sobir até ao alto do forno.

136 Enche-se a camera G, fig. 4. por huma porta L, fig. 1, e 4. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só huma pequena abertura em M, fig. 1. para dar sahida a huma parte da fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para cozer a obra. Por cima desta pequena abertura M, ha huma parede como de huma chaminé de cozinha, e hum tubo N N, fig. 1, e 4. para conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina.

137 A camera ou o corpo superior I, fig. 4. se enche de louça, que se quer cozer em branco, por huma porta que está em O, e que se fecha, quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura semilhante á que fica notada em M, fig. 1, e, como se naõ receia incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno I, por huma escada P. fig. 1.

138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de lenha rachada.


ARTIGO X.
Do verniz ou vidrado, que se põe na louça.

139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro: misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois os vidraõ, para poderem reter a agua.