140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando se tratar da louça fina.

141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia, deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por dous modos, como agora vou a explicar.

Primeiro methodo.

142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela peneira.

143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20]

144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz, por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado. O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21] Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra. A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua, em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro, nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra.

145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito, e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta, levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está derretendo.

146 O outro methodo consiste em pôr o verniz nos vasos, que já estaõ cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar; além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente [est. II], fig. 11, e 12. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas, e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças, que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo, e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado, que he possivel e se julga conveniente.

147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade.