182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita a esta qualidade de obras.

183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma freguezia, que ainda agora se chama S. Germano da olaria; porém ellas se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e ladrilhos. Na freguezia de Savignier, onde ha quatorze oleiros, que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar. Em Chapelle-au-Pot, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros; porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza.

184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie, se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle; o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem, passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os oleiros de París daõ ao seu.

185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais.

186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro, põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre huma roda de ferro [est. II], fig. 4, e 5. ou de páo que se faz mover com o pé fig. 18, [est. I]; porque os oleiros de Savignier se servem de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente, do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o verniz.

187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos dos oleiros dos suburbios de S. Marçal [est. I], fig. 7, 8, e 9. só com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo de chaminé C D, fig. 3. [est. I]; mas na parte baixa C, se formaõ pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos. Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua embocadura só tem quasi seis pés de alto.

188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ.

189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas, naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas (cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido) de páos grossos, e quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo.

190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito.

191 Em Zimmeren, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa, de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos, que se tem feito em Montereau.