192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo trabalhar nestas louças.
193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria; porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo.
Das Louças de S. Fargeau.
194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas. O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor a acçaõ do fogo.
195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça, procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar. Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau, com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ que dista huma, ou duas legoas da cidade.
196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca, que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte. Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga, quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ: para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco.
197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura, que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como se fossem envernizados.
198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area.
199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com o enxadaõ, ou enxada.