279 A parte aa, aa, B, he huma peça de barro, que fórma a parte debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura b, a qual vai ter ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura c; o corpo da fornalha dd, se põe sobre o fundo aa. He preciso notar no interior desta fornalha huma sahida de barro ee, que circula ao redor da fornalha; esta se destina para suster a parte ff, que fórma a parte baixa do fogaõ na altura dd; porém tem nos angulos quatro aberturas gg, pelas quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ, e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo ff, como se vê indicado nos pontos dd. Deste modo fica rodeado de hum calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo C, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.

280 Tambem se póde fazer uso de huma fornalha da invençaõ de Mr. Maquer, que produz hum calor muito forte, e vitrifica quasi todas as substancias que nella se põe. Esta fornalha naõ tem cinzeiro; põe-se sobre huma trempe; por baixo tem huma grade, pela qual cahe a cinza, e dá huma passagem livre ao ar. A porta só serve para facilmente se alimpar a grade com o esborralhador, no cazo de precisar. A porta he destinada para se ajustar por detraz hum cadinho para algumas operações, em que se tomasse o fumo, ou vapores de carvaõ; a parte posterior está, como se vê, inclinada para traz da fornalha: e a porta grande serve para metter o carvaõ na fornalha; he preciso que ella seja grande, porque esta fornalha consome muito carvaõ; esta parte faz vezes de zimborio, tem no meio hum principio de tubo, para receber os outros tubos, que se ajustaõ huns por cima dos outros, e quantos mais se mettem mais calor ha. Bem se vê que esta fornalha deve ter muita actividade, porque se estabelece no interior huma corrente do ar, estando o fundo todo aberto, e a columna de ar quente se eleva muito. Finalmente põe-se no interior algumas grades de ferro para sustentar o receptaculo, quando se põe hum cadinho, ou muitos, e vasos que contém as materias de que se fazem as experiencias.

281 A fig. 17, [est. II], he hum pequeno forno, de digestaõ destinado para entreter em hum calor brando certas substancias por hum tempo consideravel.

282 O que aqui se representa, he de folha de ferro, forrado por dentro de barro de cadinhos; a he o cinzeiro; b lugar onde se põe o fogo; c he huma tapagem, que cobre todo o forno; d he huma torre, onde se põe huma provisaõ de carvaõ, por naõ ser preciso pollo a miudo pela porta e: enche-se de area a capacidade c, f, e nesta area he que se põe os crisoes, ou vasos, que contém as materias postas em digestaõ. Este forno, ao contrario daquelles, de que acima fallei, he destinado para entreter por muito tempo hum calor brando, e igual; para isto he preciso, que a corrente de ar, que deve atravessar este forno, seja vagarosa, e bem dirigida. He evidente, que fechando-se exactamente as portas g, e, e os buracos, que estaõ no testo, ou cuberta h, da torre d, o fogo se apagaria, e que, abrindo-se estes buracos, o carvaõ se consumiria com presteza, e produziria muito calor. E assim para obter hum meio conveniente, se devem abrir alguns dos buracos, que estaõ nas portas g, e, e algumas das que estaõ na cuberta da torre h: por meio disto o carvaõ, que se pôs na torre d, naõ se accende, mas cahe pouco a pouco na parte b, a medida que se vai gastando o que ahi está; e quando a torre he grande, o fogo se entretem por muito tempo no forno, sem ser preciso haver com elle algum cuidado.

283 Eu podia trazer hum maior numero de fornos, ou fogareiros, que fazem estes oleiros; porém alguns exemplos bastaraõ para fazer comprehender seu modo de trabalhar.

284 Todas as fornalhas portateis, ou fogareiros saõ feitas á maõ com argilla, misturada com o pó dos vasos de manteiga, como fica dito.

285 Com hum compasso se risca em huma meza a largura, que a fornalha deve ter no fundo; depois o oleiro tendo posto sobre a meza hum bocado de cinza fina, para que o barro senaõ pegue, estende, como fazem os pasteleiros, huma pasta de barro redonda, e a põe sobre o traço que fez o compasso; este he o fundo da fornalha; depois com este mesmo barro faz outra pasta, que põe em roda sobre a pasta de barro, que fórma o fundo, tendo cuidado de os comprimir bem com os dedos, e dar-lhe mais grossura, do que devem ter as paredes da fornalha, naõ só porque o barro encolhe, mas tambem, porque batendo-o, diminue a grossura. Ajunta outros rolos de barro huns sobre outros, e tem o cuidado de os comprimir, e unir bem com os dedos para vir a fazer tudo hum só corpo, naõ ficando vacuo interposto entre as camadas de barro, porque o ar contido neste vacuo faria arrebentar o forno, quando se dilatasse pelo calor. Quando o forno chega a altura, em que se deve pôr a grade, por cima do cinzeiro, fórma huma pequena sahida ou borda com o mesmo barro para suster a grade.

286 Pensaõ, e com razaõ, que os rolos de barro, comprimidos com os dedos deixaõ desigualdades. Depois que o forno tem chegado a huma certa altura, o official passa o gume da maõ, de cima a baixo, e ao través, e deste modo o une, e torna igual. Esta operaçaõ une a obra, e destroe as desigualdades, e a faz compacta, tirando-lhe os pequenos vacuos, que teriaõ ficado. Continua por diante a pôr os rolos de barro para levantar o forno, e formar a parte, que se chama fornalha, ou o fogaõ; depois o laboratorio até o lugar, em que se deve pôr o zimborio, e de vez em quando pule a obra, como já fica dito.

287 Sabe-se muito bem, que os fornos saõ mais largos por cima do que por baixo. O habito dos bons forneiros he, o que os obriga a observar este methodo regularmente, vindo a dar ás paredes dos fornos a devida grossura; fazem-lhes varios contornos muito regulares, e para tudo isto naõ carecem de regua, nem compasso, he só com a vista, e nem tem outros instrumentos, senaõ as maõs, e o instrumento de bater o barro em pasta.

288 Querendo-se formar pequenas chaminés para dar sahida ao vapor do fogo, se fazem no corpo do forno buracos, que se tapaõ com o mesmo barro disposto na figura conveniente a maõ, ou em molde, e segura-se quasi como as azas na louça. Os lugares, em que se péga, para mudar o forno de hum lugar para outro, e as sahidas, ou crescimento de barro, que se faz por baixo das portas, se começaõ, quando se fórma o corpo do forno, e se aperfeiçoaõ, quando se acaba de bater. Feitos assim os fornos, como se acaba de dizer, e aperfeiçoada a superficie com os dedos se põe a enxugar, e depois se acaba; para isto se bate com huma taboasinha por fóra, e mesmo por dentro, quando o diametro o permitte; abrem-se as portas com huma faca molhada, finalmente em quanto o barro está ainda mole, e ductil, se aperfeiçoaõ todas as partes do forno; e os habeis obreiros os fazem com tanta perfeiçaõ, como se fossem feitos em moldes, ou em roda.