298 Suposto que disse que os oleiros de Picardia faziaõ bons cadinhos com o seu barro de greda, toda via arrebentaõ no fogo, se os esquentaõ precipitadamente; porém se os esquentaõ aos poucos resistem a hum fogo violento sem se desfigurarem, e resistem a acçaõ dos saes, e metaes derretidos.[25]

299 O barro de Gournaes em Normandia he muito bom; elle sopporta hum fogo muito grande sem se desfigurar; mas tem o defeito de conter em si muita quantidade de pequenas pyrites, e fragmentos de mina de ferro. Eu disse, que tinha chegado a remediar ao menos em partes, estas faltas, dissolvendo-o em muita agua, e deixando precipitar o que era mais pezado, e mais grosseiro, para me servir do barro fino, que se precipitava depois.

300 Para fazer os vasos das fabricas de vidros, em que se tem o vidro derretido, tres semanas sem interrupçaõ, se escolhe da boa argilla, a mais pura, que se possa achar; liga-se com esta mesma argilla bem cozida, reduzida a pó. Esta liga se faz em differentes doses, segundo a argilla he mais, ou menos macia e ductil, e mais disposta a fechar-se, sendo cozida; de sorte que certas argillas cruas naõ podem soffrer senaõ partes iguaes de argilla cozida, e outras muito macias podem soffrer cinco, e seis partes de argilla cozida em quatro partes da crua.

301 Ha fabricas de vidros, que fazem os seus grandes cadinhos, a que elles chamaõ potes, com rolos de barro, como os nossos forneiros, outros os fazem em moldes.

302 Os forneiros de París fazem seus cadinhos com argilla cinzenta de Gentilly; elles a escolhem, e alimpaõ com mais cuidado, do que para os fornos; depois a ligaõ com pouco mais de outro tanto de barro cozido, que passaõ por hum crivo hum pouco mais fino, do que para os fornos. Depois de terem preparado o barro o estendem pouco a pouco sobre hum molde de páo c [est. I], fig. 22, que tem a figura que deve ter o interior do cadinho, tendo-o esfregado com area fina, para que o barro senaõ pegue; começaõ pelo fundo do cadinho, cobrem o molde com huma camada de barro, que tem tres, ou quatro linhas de grosso, e estendem-na pouco a pouco com pequenos golpes; e isto fazem com muita destreza, e regularidade. Estes cadinhos saõ bons para muitas operações, ainda que naõ podem supportar hum fogo muito grande, nem ter saes em fusaõ, como fazem os cadinhos de greda, e os de Allemanha.

303 Do modo seguinte os tenho feito para as pequenas experiencias de mina. Dissolvi a argilla de Gentilly em muita agua, e deixei precipitar os corpos mais pezados; fiz depois seccar a argilla pura, que se precipitou em ultimo lugar; depois a pizei, e passei por huma peneira fina. Com estas preparações separei da argilla todos os corpos estranhos, a excepçaõ só das substancias, que estavaõ muito soltas, e em particulas minimas: liguei esta argilla com o pó dos vasos de manteiga passados por peneira fina, e formei os cadinhos em hum molde de cobre comprimindo-os, do modo que se faz o forno dos pitos. Estes cadinhos eraõ bons; com tudo naõ podiaõ soffrer hum fogo grande, e me achei melhor com a argilla branca, de que se fazem os pitos em Normandia; pois esta argilla commummente he mais izenta de substancias estranhas, do que ás argillas de côres. Digo commummente, porque ha argillas brancas, que saõ mui fusiveis, e carregadas de partes metallicas; e por isso o mais seguro he experimentallas antes de fazer uso dellas; visto que se pode dizer em geral, que he preciso escolher huma argilla, que naõ seja fusivel, e sobre tudo, que naõ tenha mistura de pyrites, de substancias metallicas, nem de area vitrificavel; porque os saes, ou substancias metallicas, que se põe nestes cadinhos vitrificaõ estas substancias estranhas ao barro, e os cadinhos ou rachaõ, ou furaõ. Havendo huma argilla pura, e refractaria, que dá ductilidade a pasta, se precisa, como já fica dito, ligalla com algum pó de tijollo, para impedir á argilla, de se encolher, e rachar ao cozer. He preciso, que estes pós de tijollos sejaõ refractarios: por isto nas fabricas de vidros se servem da argilla, que elles mesmos fizeraõ cozer; e para os cadinhos pequenos bastaõ os pitos bem cozidos, e feitos em pó. Os forneiros fazem uso do pó dos vasos de manteiga de Normandia: desgraçadamente sua argilla naõ he tal, como se poderia desejar. Elles o sabem; e para fazer seus cadinhos melhores, misturaõ muito pó de greda com a argilla; porém entaõ naõ fica muito compacto o barro dos cadinhos, e deixa passar pelos poros as materias, que tem em fusaõ, quando estaõ muito fluidas. Os cadinhos de greda naõ tem este defeito; e assim he preciso observar huma justa proporçaõ nestas ligas; porque, pondo-se muita argilla crua, he bem difficil de impedir o racharem os cadinhos ao seccar, ou ao cozer; e pondo-se muito pó, ficaõ os cadinhos com pouca firmeza, e naõ podem suster o pezo dos metaes, e tendo os poros muito abertos, o metal, e sobre tudo os saes, os penetraõ: por isso dizem alguns, que he preciso misturar-lhe hum bocado de area vitrificavel. Mr. de Reaumur, por exemplo, se achou bem em fazer cadinhos com partes iguaes de greda, area, e barro de pitos.

304 As ligas seguintes saõ exageradas por alguns; mas eu nunca as experimentei.

305 Duas partes de argilla boa, pura, e bem secca, duas partes de pó de vasos de greda, huma parte de area; alguns lhe ajuntaõ hum bocado de limalha de ferro, e agua salgada.