46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por moldes, como os pequenos.
47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno.
48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz como vamos a explicar.
Do forno[10], e do modo de arranjar nelle os ladrilhos para se cozerem.
49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de Saint Antoine para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que estaõ mais em uso nos arrabaldes de S. Marceau; elles vem representados na [est. I], fig. 7, 8, 9. A fig. 7 representa o plano do forno; a fig. 8 he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha A, C; e a fig. 9 he huma divisaõ transversal pela linha G, H, da fig. 7: A he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se põe madeira para esquentar o forno, como se vê de A, até B, fig. 7, e 8; de B, até C, he a capacidade interior do forno, aonde se arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; C, D, fig. 8, he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo perto do pavimento do forno em C, he preciso, que a corrente de ar, que entra pela boca A, passe ao tubo D, pelos buracos C. Deste modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de M, fig. 8; o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama Lingueta,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em C, e tornar ao tubo C, D. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais estreito na sua entrada K, I, fig. 7, do que no fundo, os lados em G, H naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia; arrumando lenha nos dous lados, como se vê na fig. 7, e como adiante explicaremos. F, fig. 7, he huma porta, por onde se entra no forno para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e se accende o fogo.
50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em I, H, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros crenaux[12], para que o calor do fornete A B. se communique o forno. Esta separaçaõ, recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se la fausse-tire, a qual se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que dure o mais que for possivel.
51 Como a parte de diante do forno está tapada em I, K, pela fausse-tire[13] he preciso carregallo pela abertura F, e começa-se, formando as tres primeiras ordens da parte da fausse-tire, para isto se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte, como se vê em a fig. 8, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na fig. 7, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho, e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos ladrilhos da ordem inferior.
52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos lados as achas de lenha, como se vê fig. 7, e além de huma ordem de achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê fig. 7, segundo a linha de G, e H, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas, ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede do fundo do forno, que se chama Lingueta. Quando as achas de lenha, que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura F, fig. 10; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos; porém por naõ fechar a entrada F, se começa, enchendo primeiro o lado opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura L, que se fecha por huma parede de tijollos, como já dissemos.
53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de K, a L, e sete de K, a I, para cozer os ladrilhos se gasta carga, e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha A, B, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros la chasse.[15]