54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos, que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer, talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida.

55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre A, e B, fig. 7, e 8; isto se continúa trinta e seis horas, para que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca, e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno.


ARTIGO III.
Das obras de ladrilho.

56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro, he preciso fallar aqui dellas.

57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa, betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ encolher tanto o barro.

58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se torna quasi em arêa pura.

59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em uso.

60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas, e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como se fôra o gesso vivo.