As joias do judeu
VIII
Encantadora manhan! O Colima deslisava pelo mar compacto e liso, com a macieza de um patinador sobre camadas de gelo azul.
Ermo de nuvens o espaço. Os floccos do vapor quedavam indecisos, como receiosos de partir para fluctuar sósinhos, no firmamento fulguroso e vasio. Á mais tenue aragem, se dissolviam em diaphaneidades opalinas.
Passageiros e tripolantes passeiavam no tombadilho, leves e bem dispostos. Lupe balouçava-se indolente n’uma cadeira de balanço, os olhos semi-fechados, na deliciosa morbideza que insinuam calmarias no alto mar.
Mas Salomon, o viajante judeu, trouxe do seu camarote pesado involucro. Abrio-o com precauções meticulosas. Era um cofre portatil, armado de complexas fechaduras. Amontoavam-se dentro pequenos estojos multicôres de velludo e setim.
Collocou-os Salomon enfileirados n’um banco e os foi descerrando carinhosamente, como se guardassem sagradas reliquias. Continham as joias em que elle negociava. Talvez, mesmo a bordo, effectuasse feliz transacção. Quando menos, lisongear-lhe-hia o amor proprio estadear as suas riquezas. Ou movia-o simplesmente a volupia argentaria de mirar as faiscações do sol na pedraria rara. D’ahi a exhibição.
Accorreram todos, tocados da hypnotisação que exercem sobre os transeuntes vitrinas de ourivesaria. Lupe exultava, enthusiasmada. Com suspiros de prazer e exclamações de jubilosa surpreza, examinava os preciosos artefactos, finamente burilados.