—Que bonito! Que mimo! reparem n’esta cinzeladura! Calculem o valor deste brilhante!...—murmurava em extasis.

O judeu sorria ufano. Esplendido na realidade o seu sortimento!

E nos olhos da mexicana lucilavam fremitos de cubiça, saudades do tempo em que possuira primores iguaes, despeitos de já lhe não ser dado, em troca de miseraveis cedulas bancarias, adquirir n’um momento, para lhe sublinhar a belleza, os mais deslumbradores d’aquelles magnificos adornos...

Dir-se-hia que as suas pupillas e o esmalte de seus dentes trocavam com as gemmas scintillações fraternaes.

De repente, a impetuosa moça não se poude mais refreiar. Com um movimento rapidissimo, arrecadou no vestido, regaçado como uma bolsa, os escrinios expostos, e, carregando o valioso volume, desappareceu a correr.

Profunda estupefacção dos assistentes! Salomon, as feições decompostas, precipitou-se atraz d’ella.

—Nada receie,—gritei-lhe. Não ha onde fugir a bordo, nem se pódem dar extravios.

Minutos depois Lupe voltava. Puzéra, com incrivel presteza, um antigo vestido de baile, lembrança da extincta opulencia, ordenara os cabellos em festivo penteiado, e collocara em si todos os braceletes, anneis, collares, broches e diademas do judeu.

Que linda e singular estava,—princeza encantada de legendas arabicas, constellação viva, formoso ser phantastico, recamado de luz!...

Circumdava-a um halo de ouro. Da cabeça aos pés resplandecia. E os rubins, esmeraldas, diamantes, amethystas, topazios, saphiras, profusamente fixados em seu corpo, desferiam incisivos relampagos azues, crystalinos, verdes, roxos, roseos, rubros, no meio dos quaes languidas as perolas soltavam claridades pallidas de luar.