Idolo extranho; flôr de sonho, crivada de pyrilampos divinos!

Lupe deixou que a admirassemos á vontade n’aquella apotheóse. Aprumava soberba o porte, donosa e feliz. Depois debruçou-se da amurada, bradando:

—Eis-me em trajo proprio para visitar nymphas. E se me atirasse agora ao fundo d’agoa?!... Teria, ao menos, mortalha e sepulchro dignos de mim...

E inclinou-se mais no parapeito, como se tencionasse realmente effectuar a ameaça. Da sua imagem, pendida sobre as ondas, brotavam reflexos fugazes e tremeluzentes de fabulosa apparição.

Mas o judeu impacientissimo julgou que o gracejo se prolongava demasiado. Correu para ella, as mãos estendidas, exclamando, entre irritado e supplice:

—Miss Hedges... Senorita Lupe... Senorita Lupe...

A mexicana fitou-o com intraduzivel desdem. Em seguida, um a um, lentamente, restituiu-lhe os adereços, desprendendo-os de si com visivel pezar.

Salomon submettia cada joia a severo exame, para verificar se nada lhe faltava.

E no despojar de Lupe havia qualquer cousa de tragico,—a solemnidade triste dos irreparaveis sacrificios. O seu vestido de luxo appareceu, por fim, roto, manchado, lamentavel resto de outr’ora.

Ella cahio então n’uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos.