Ponderou muito bem um amigo que accorreu em minha defesa: “n’um trabalho d’arte tudo trae a mão que o fez, o cerebro que o pensou, o coração que o sentio; o cunho do temperamento individual é condição essencialissima para sua vitalidade.”

De facto, mesmo os objectivistas e impassiveis, sem embargo de quaesquer artificios, assignala-os e distingue-os essa propria impassibilidade ou objectivismo.

Quando menos, eil-os particularisados no estylo, onde cada qual, máo grado seu, estampa o seu sello original.

Até na arte photographica, que se limita á reproducção automatica das apparencias, patenteia-se a personalidade do artista na distribuição dos grupos, na selecção das posições e dos objectos photographados, em mil traços, em summa, inconscientes e caracteristicos.

—Mas,—insistirão,—escolheis assumptos excessivamente intimos. Vossos escriptos são auto-biographias. A egomania vos domina.

Retorquirei, recorrendo á autoridade suprema de Victor Hugo.

Quanto á opção das materias, doutrinou elle, (cito de memoria) no prefacio das Orientaes:

“Não reconheço á critica o direito de interpellar o poéta acerca da sua phantasia e de o increpar porque adoptou um assumpto de preferencia a outro, utilisou-se de tal tinta, colheu n’aquella arvore, bebeu em determinada fonte. É bôa ou má a obra? Eis o dominio da critica. Não ha em poesia bons ou máos assumptos, mas bons ou máos poetas. Tudo é assumpto. O dominio da arte abrange tudo. Não pesquizeis o motivo que me levou a eleger tal argumento. Examinai o como trabalhei, e não o sobre que e o porque.”

No tocante ao pretenso abuso do pronome pessoal, apadrinhar-me-hei ainda com o grande mestre, que, no proemio das Contemplações, ensinou: