Quão diversas das de então as preoccupações actuaes! Que largo montão de sedimentos,—detritos de jubilos, decepções, projectos, experiencias, vicissitudes de toda casta,—me depositou sobre a reminiscencia d’aquella phase o fluxo constante da vida!....

Durante o prazo alludido, haviam-se-me acrescido a familia e os encargos; eu emprehendera outras viagens longinquas; supportara embates de revolução; curtira amarguras de exilio.

E cada dia recúam para limbos mais indistinctos as scenas da primavera juvenil.

Á medida que galgo a montanha, se relanceio para baixo saudosos olhos, mais e mais duvidosamente distinguo os contornos do sopé, no fundo de um abysmo, povoado de brumas. É a lei ineluctavel, e quiçá providencial, do existir.

Sem embrago ha uma semana, no curso de trabalhos encetados, pouco tendentes a divagações imaginarias, reproduziu-se-me, repentinamente, o extranho phenomeno evocativo occorrido por occasião da carta de Lupe.

Revi-a, a joven mexicana, pela segunda vez tão nitidamente como da primeira, n’uma reflorescencia magica de recordações.

Mas circundaram agora a figura resurgida reverberações tumulares. Exhalou-se d’ella a emanação melancholica de algo definitivamente extincto. Gracioso phantasma, repassou-me de indizivel fluido sobrenatural.

Lupe morreu! Uma voz intima m’o affirma irrecusavelmente. Tenho tanta certeza do seu fallecimento como se lhe houvesse cerrado piedoso os olhos travessos, cruzado sobre o seu peito as suas mãos fidalgas e atirado sobre o seu corpo donairoso a derradeira pá de cal.

Pobre Lupe, estrella cadente que debuxou rapida linha de luz mysteriosa no horizonte da minha mocidade,—galante esphynge pousada á beira da minha remota estrada percorrida!

Que eras tu? Alma corrompida ou pura? Corpo maculado, ou de virgem? Victima apenas de pernicioso meio? Flôr venenosa do mal?!