Frisco
I
Muito triste a minha partida de S. Francisco da California,—Frisco,—segundo o dizer vulgar dos respectivos habitantes.
Eu passara alli uma semana, no maior isolamento.
Com obsequioso interesse, o consul geral do Brazil nos Estados Unidos, Salvador de Mendonça, me havia recommendado ao seu agente n’aquella cidade, Mr. J. L. M. Randolph.
Dispensara-me este a inexcedivel amabilidade dos americanos, quando condescendem em se mostrar affaveis.
Mas era um negociante occupadissimo, sempre ás carreiras, para quem constituia séria contrariedade o desperdicio de um minuto.
Morava no Cosmos-Club com varios rapazes celibatarios, quasi todos empregados no commercio.
Obteve a minha admissão, como socio temporario, n’esse club, luxuosa e confortavelmente installado; offereceu-me ahi excellente jantar, regado de saborosos e variegados vinhos, fabricados sem excepção na California, inclusive o champagne e o porto; presenteiou-me com minucioso guia illustrado da povoação; forneceu-me concisamente preciosas informações, de perspicassissimo cunho pratico, sobre tudo aquillo de que poderia precisar um viajante na minha idade e condições (eu entrara então nos 24 annos); e, abalando-me os ossos n’um formidavel shake-hands, concluio, ao entregar-me o seu cartão de visita, em cujo dorso se alinhavam algarismos manuscriptos, semelhando uma taboada:
—Sinto não me ser dado acompanhal-o sempre, mister Cilso. Eis aqui os numeros telephonicos deste club, onde durmo; do escriptorio onde trabalho; do bar, onde bebo; do bilhar onde jogo; da egreja, onde rezo; do centro politico, onde discuto; das casas de cavalheiros e damas que frequento. Em precisando de mim, a qualquer hora do dia ou da noite, chame-me desassombradamente e accorrerei logo, cheio de prazer, para lhe prestar serviços. E good bye, my dear, good bye...
Assim, eu visitara sosinho as curiosidades locaes, vivendo dias inteiros sem conversar com quem quer que fosse.