—O contrato que o sr. Silva Mattos acaba de propor-me, não tem no Codigo Civil o nome de associação com que erradamente o baptisou, chama-se um contrato de compra e venda. N'este caso um outro codigo que segundo vejo desconhece, o que o torna irresponsavel, ensina a repellir as propostas insolentes e atrevidas.
Tome no sentido em que quizer as minhas palavras, mas veja n'ellas a recusa terminante de me deixar despojar da dignidade, como infelizmente me vejo obrigado a abandonar tudo quanto me resta.
E voltando-lhe as costas entrou na sala emquanto o banqueiro pondo a chicara do café sobre o marmore d'um tremó, encolhia os hombros n'um gesto de quem tira de si a responsabilidade d'um suicidio e abanava a cabeça, com o beiço inferior estendido murmurando baixinho: É tolo.
Carlos pela força do habito sentou-se n'uma cadeira junto de Mathilde e só depois de ahi estar, lembrando-se da scena de manhã, ia levantar-se pedindo-lhe perdão, quando ella adivinhando a intenção lhe disse:
—Fique, porque temos que fallar. Contou-lhe então que sahindo de casa d'elle resolvera, levada de um impeto de ciume, descobrir quem escrevera aquella carta, que dera logar a ouvir a condemnação cruel de todo o[{29}] seu passado amor. Fallando, as suas palavras revelavam quanta paixão verdadeira se tinha escondido, e ainda agora existia sobre a frivola apparencia d'um capricho passageiro; quanto soffrera desde essa manhã.
Agora porem que o caso lhe fizera descobrir a mão que, inconscientemente quebrára o fio doirado da sua leviana existencia, essa mesma mão lhe indicaria o caminho da unica vingança possivel, embora n'esta empreza esmagasse de vez o coração. N'este momento, dizia ella, uns olhos negros que o envolvem n'uma atmosphera de adoração estão-me silenciosamente revelando as torturas porque n'esta occasião passam, e que eu proprio por meu mal conheço tão bem? A differença é que elles podem olhar, para o futuro com o direito que lhes dá a innocencia, e a legitimidade do seu sentimento, e os meus só podem ver no passado a condemnação de todas as esperanças, e afastam-se com horror do isolamento futuro a que me condemnei.
Um conselho de quem lhe quer muito...—continuou ella. Alguem, que não eu, pode talvez dar-lhe a felicidade completa, deixe que o braço que ainda ha poucos minutos se encostava ao seu, n'elle se ampare para toda a sua vida. Ella é boa segundo todos dizem, bonita como ninguem, tem no espirito sufficientes recursos para fazer esquecer os vicios d'origem...
—Falla-me de Maria, a filha de Silva Mattos[{30}] e affirma-me que foi ella quem esta manhã me escreveu aquella absurda carta. Talvez! Obedeceu as ordens do pae que acaba de offerecer-me a filha, e algumas centenas de contos, em troca do meu voto na camara dos pares, e de não sei que influencia, que imagina eu tenho. Não queira medir o coração dos outros pelo seu que é generoso e bom. Não utilise em favorecer as ambições d'um argentario e os caprichos d'uma pretenciosa, o sacrificio que faz, e que eu acceito, porque não posso com dignidade evital-o.
D'ahi a momentos sahia, seguindo a pé pelas ruas tortuosas, estreitas e humidas, abobadadas com roupa estendida, desde a vespera, em cordeis esticados nas pontas de pequenos paus, que se fincavam nos peitoris das janellas. A velha Alfama dormia tranquilla e silenciosa como nas noites em que era acordada pelas danças, trebelhos e folgares do folião D. Pedro I, ou pelos rugidos e ameaças populares dos sequazes de Alvaro Paes contra a bella Leonor Telles.
Apenas de alguma janella mal fechada sahiam as ultimas notas do fado repenicadas na guitarra por fadista estremunhado, em quanto nos cafés, á espera da madrugada, vultos dormiam de bruços sobre o marmore das mezas.