—Olhe, Mathilde, disse-lhe elle uma vez, se algum dia a fortuna deixar de ser avessa para mim, só uma mulher me poderá dar felicidade, e então irei pedir-lhe, a si, que, para epilogo do começado romance juntemos os nossos destinos, embora as cabeças branquejem, annunciadoras de velhice.

Bem no intimo esta resposta de Carlos lisonjeava-a, acariciava o bocadinho de egoismo que acompanha sempre os mais sublimes sacrificios.

E sem desistir da sua resolução heroica, sem permittir a minima concessão ás exigencias do seu coração de mulher, sentia comtudo mais facil a conformidade, achava mais suave a viuvez a que se condemnara.[{41}]

A sua vibratil feminilidade assim como lhe tornava airosos os movimentos, e lhe imprimia graça nas maneiras, transformava todas as suas ideias em sentimento, obrigando-a a pensar pelo coração.

Em Maria, pelo contrario, a paixão revelava-se pela ideia fixa. A sua natureza impetuoa e ardente coloria com os tons vivos do enthusiasmo, exagerava com a desproporção d'uma lente convexa qualquer sentimento. O amor n'ella, era a vibração intensa d'um cerebro exaltado, a excitação agitadora de todo o systema nervoso.

O que nas creaturas docemente amorosas como Mathilde dá o extasi; o abandono de todo o ser a uma aspiração vaga, a dedicação submissa, e a deliciosa abstenção da propria individualidade, nas almas violentas produz a preoccupação continua, a monomania do amor, o delirium tremens da paixão, o desejo ideal da posse absoluta, um estado de hypnotismo constante. É o amor cerebral das que adoram, e das que matam. A sua sensualidade racional é mais terrivel, mais indomavel, que a das hystericas. Pode dominar-se uma paixão; ninguem tem em si força propria para submetter uma allucinação.

Maria adorava Carlos assim.

A sua phantasia imaginava-o aquelle conjunto de qualidades romanescas, de generosas loucuras, de audacias heroicas que formam a ave azul de todos os dezoito annos ainda os mais dados[{42}] a prosa chã da vida. E de facto, Carlos, bello na sua despreoccupada elegancia, valente, nobre, intelligente, um quasi nada altivo, realisava, quando apparecia na sociedade cercado pela estima dos homens, aureolado pelos segredos surprehendidos em todas as boccas femininas, o typo ideal de molde para infiltrar no organismo da exaltada creança aquelle absorvente amor.

O Pae apesar de pouco prespicaz em materia de coração, descobrira essa tendencia, e no empenho de a cazar, compromettera desastradamente o exito da missão delicada. Desde esse dia, Maria, conhecedora das relações entre seu Pae e Carlos, o que mais aggravava o estado do seu espirito, perdida a campanha de salvar a casa que o banqueiro resolvera comprar, e a esperança de a habitar noiva e feliz, entrou a deixar-se apossar da ideia de que a invasão d'aquelle palacio e a sua renovação (quasi um sacrilegio) lhe trazia a infelicidade de toda a vida, a ruina de todas as aspirações.

O banqueiro por seu lado supersticioso, como todo o homem de negocio, começou a ligar á posse d'aquella casa a ideia de prosperidade nas vastas emprezas. Lisongeava tambem a sua crescente ambição de nobreza o facto de habitar o antigo solar d'uma familia illustre.