Minutos depois, das janellas do seu quarto voltado para ao occidente, Carlos viu passar lá em baixo, junto ao edificio monotono e triste do Terreiro do Trigo, a victoria puxada a trote largo. Pelos passeios os que voltavam a cabeça para vêr aquella mulher formosa, passar, como levada n'um triumpho de riqueza e de bom gosto, não suspeitavam o doloroso confrangimento do seu coração, a tempestade do seu pequenino e amoroso cerebro.[{20}][{21}]

II

o jantar que n'esse dia deram os condes de Ponte Nova, Carlos ficou collocado entre uma senhora velha, parenta proxima d'um ministro, e a filha unica do banqueiro Silva Mattos, que pela sua belleza, e principalmente pela importancia do dote provavel, era chamada a sorte grande, quando passava pelo Chiado ao lado de sua mãe n'um landeau, aberto como uma melancia madura.

Por indicação da dona da casa, sublinhada por um sorriso intencional, dera-lhe o braço para a conduzir. Na sua frente, entre duas largas corbelhas de prata lavrada, d'onde emmergiam montanhas enormes de flores silvestres, avistava o[{22}] perfil risonho de Mathilde conversando com um francez que não conhecia, e que estava achando profundamente antipathico, e quasi insolente na intimidade que affectava no dialogo.

Tratou de indagar da sua visinha da esquerda quem elle seria.

—Provavelmente um estrangeiro, respondeu a velha.

A intelligencia e perspicacia que a resposta revelava inclinou-o para a direita, dirigindo a mesma pergunta.

—É um engenheiro francez, socio de meu pae na empreza d'um cabo transatlantico, explicou-lhe a filha do banqueiro, córando desde a orla do decote á raiz dos cabellos d'um louro cendrado.

Carlos reparou então na extraordinaria correcção d'aquella belleza que lembrava vagamente os retratos das patricias venezianas, na frescura da sua pelle, na suavidade do olhar escuro e avelludado, na expressão serena e meiga tão em harmonia com a voz de contralto, funda, arrastada, caridosa... Involuntariamente, com um pensamento malicioso, comparou a distincção d'aquella rapariga com a physionomia vulgar do banqueiro, gordo e de testa pequena, beiço superior rapado, maçãs de rosto proemientes, com uns pequenos olhos vivos onde apparecia um lampejo de penetração, aguçada pela faina constante do manejo de capitaes. Procurou depois com a vista,[{23}] em procura d'uma affinidade, a mãe, doce creatura insignificante, silenciosa e passiva, cujo pequeno dote nas mãos habilidosas do marido tinha sido a primeira semente da grande fortuna. E voltando de novo a olhar a sua visinha, tão superiormente bella, com o seu ar original de altivez rendida, pensou: