Odorico Mendes, o douto Brasileiro, deixou-se arrastar pelas suas tendencias cegamente democraticas, quando escreve o seguinte: «Era costume, o de nomear-se um figurão para o posto superior, e alguem de boa cabeça para segundo.»
Deve notar-se que o figurão era um espirito cultivado, que logo de entrada conquistou as boas graças e resolveu negocios importantes, como é sabido.
E Francisco de Moraes, quando chegou a Pariz, nem mesmo a lingua franceza entendia, como elle proprio confessou na Desculpa de uns amores...
Nada prova isso em seu desabono, mas desfaz a atoarda que alcunha de inepto espaventoso o Embaixador, que tão habil se mostrou no desempenho da sua missão.
Um e outro eram dotados de engenho. Um e outro possuiam qualidades para se fazerem apreciar.
E o valimento do Embaixador facultou a Francisco de Moraes, o Secretario, facil acolhimento nos circulos palacianos. Valendo-se d’isto, e porque era conhecedor do coração humano, este soube habilmente explorar o affecto maternal da Rainha Leonor fallando-lhe na filha que ficára em Lisboa, e evocando com tacto e arte subtil os tempos em que moça, adorada e feliz, quando casada com El-Rei D. Manoel, ella era a soberana radiôsa na Côrte de maior explendor da Europa.
A Rainha agora ia já entrando na edade mofina.
Desapparecêra a frescura da mocidade; o marido voluvel cultivava descuidadamente os alfobres em que floresciam as suas damas de honor; o irmão implacavel continuava a guerra; e, lá longe, sobre o Tejo, a filha, a Infanta D. Maria, unico arpão que devéras a prendia á vida, aboborava n’um quasi sequestro em que D. João III a conservava por não lhe convir que a Irmã sahisse de Portugal.
Francisco de Moraes facilmente encontrou o caminho d’aquella alma desterrada, d’aquelle coração maternal ulcerado, d’aquelle orgulho de soberana dolorida. Fallava-lhe em castelhano. Perfumava-lhe a imaginação de recordações, e o coração de consolos.
Descrevia-lhe a filha, a Infanta, então em todo o esplendor da sua altiva belleza loura, requestada por Soberanos e por Principes; narrava-lhe a existencia austera, mas de requintado lustre que ella levava nos Paços da Alcaçova Velha e nos de Santa Clara, onde a esse tempo já se reunia uma Academia douta e elegante.