Basta este verso para tornar immorredouro o nome de D. Antonio.
Entre aquelles que frequentavam a casa dos Linhares, todos notaveis por varias fórmas,—Fernão da Silva; Francisco de Moura, estribeiro mór do Senhor D. Duarte; João Lopes Leitão, o famoso pagem da lança, Caminha, o mesurado poeta, e Luiz de Camões, o turbulento amigo do moço D. Antonio,—encontrava-se frequentemente Francisco de Moraes, filho do Thesoureiro-mór do Reino.
As suas faculdades eram muito apreciadas e aproveitadas pelos Senhores d’aquella familia.
A elle por vezes recorriam, como se vê da petição dirigida a El-Rei por D. Ignacio, para que a seu irmão D. Francisco passasse o titulo e a casa.
Francisco de Moraes nascêra nos fins do século XV. Fôra na primeira mocidade, moço fidalgo da casa do Infante D. Duarte.
O cargo de seu pae e o seu proprio obrigaram-n’o a manejar cifras e algarismos.
Mas nem a tarefa da contabilidade lhe turvou a inspiração, nem o ambiente severo da Côrte lhe abafou as ebulições e effervescencias do coração.
Poeta, versejou em portuguez e castelhano. Cavalleiro e namorado, o mesmo é dizer—ardente de animo, terno de coração—foram varias as crises amorosas que atravessou, como elle proprio confessa. Não deixaram, porém, esses passageiros enternecimentos outro vestigio que não fosse a ingenua confidencia (ou auto-biographia amorosa) que nos faz pela bocca do seu heroe Florendo do Deserto, ajoelhado aos pés da Torcy.
Pelas suas occupações, que lhe davam facil accesso na intimidade dos soberanos, e pela sua acceitação em casa dos Linhares, estava naturalmente indicado para Secretario da Embaixada de D. Francisco, que partiu para Pariz no anno de 1540.
Cumpre aqui n’um ligeiro parenthesis desfazer a impressão, que porventura tenham deixado no animo de algum leitor desprevenido, os periodos em que Odorico Mendes, o escriptor maranhense, que denodadamente defendeu a origem portugueza da novella, dá a entender que Francisco de Moraes foi na embaixada como mentor ou guia de Dom Francisco de Noronha. O Embaixador ficaria assim com um papel de simples representação, sem nada emprehender senão com a ajuda do intelligente Secretario.