Via no fundo da sala os cortezãos segredando, e adivinhava nas physionomias ironicas e sorridentes a satisfação com que alguns assistiam ao seu desfavor. Avaliando a gravidade da situação, logo que as queixas de Francisco I iam esmorecendo, pediu licença para responder. E com destreza se houve no seu arrazoado, jurando que ignorava tudo, mas que era sua convicção que o silencio de El-Rei de Portugal, longe de ser uma desconsideração, demonstrava o desejo de manter boa amizade... Enfeitou com tal arte esta these aliás difficil de defender, que Francisco I, ouvindo-o discretear «ficou n’isto tão satisfeito que com muito riso e festa levantou o Embaixador nos braços (porque era homem de muito grande corpo e de muitas forças), dizendo-lhe: Ah monsiour (sic) dom Francisco, dera Paris por um homem como vós.»
O gelo derreteu-se milagrosamente. E a fina flôr da gente palaciana, que de longe observava o extranho espectaculo, logo fez correr a noticia de bocca em bocca pelas camaras e recamaras, de modo que o valimento de D. Francisco ficou outra vez consolidado.
Quem era este Embaixador? Filho segundo do Conde de Linhares, por seu Pae descendia dos Villa Reaes e dos Braganças, sendo portanto proximo parente da Casa Real. Seu irmão primogenito, D. Ignacio, que na primeira mocidade fôra intelligente e valoroso, deixara-se dessoradamente arrastar a uma vida crapulosa de prazeres faceis. Attrahido pelos encantos equivocos de hetaïras de viella, sacrificava á Venus plebeia em orgias de baixa esphera, o que fez determinar sua mulher D. Isabel de Ataide, filha de Vasco da Gama, a recolher-se a um convento, desgostosa por ver o marido dominado e amollecido pelas comborças, que infestavam as betesgas da Alfama. Conscio da propria degradação, D. Ignacio, afim de mais livremente se entregar ás suas fugas para Cythera, pediu, ou foi pelo Rei induzido a pedir, a renuncia do titulo e da casa, em que succedeu o secundo-genito D. Francisco de Noronha que assim foi o 2.º Conde de Linhares.
Os Linhares, Noronhas, com excepção de D. Ignacio, eram gente dada ás cousas do espirito, e na sua casa prestou-se fervoroso culto ás lettras. Esse culto foi intensificado com o casamento de D. Francisco.
Sua mulher, Violante de Andrade, provinha de uma casa nobre tambem, e toda rica de tradicções litterarias. A essa familia pertenceu Diogo de Paiva de Andrade, o grande prégador; o heroico frade agostinho, Frei Thomé, auctor vernaculo dos «Trabalhos de Jesus», Francisco de Andrade, o chronista; sem contar que d’essa estirpe brotaram tambem os Ericeiras, tão nobres no patriciado das lettras como no do sangue, e no das armas. E de D. Violante e D. Francisco foi filho aquelle D. Antonio de Noronha, o amigo dilecto de Camões que, ao saber da morte do pobre moço, lhe dedicou o lindo soneto:
«Em flôr vos arrancou, de então crescida,
Ah! Senhor D. Antonio a dura sorte...
e que termina:
«Na memoria das gentes vivereis.»