Caçadas e justas, torneios e monterias succediam-se ora nos frescos bosques de Sonia «que agora chamam Dijon», ora na floresta de Fontainebleau, cujo palacio o Rei, seduzido pelas graças da Renascença e influenciado pela Duqueza d’Etampes adornava com as maravilhas de Jean Goujon.

Era deslumbrante a côrte que Francisco de Moraes ia encontrar em França, para onde partiu em 1540 como Secretario do Embaixador D. Francisco de Noronha. Tão grande era o poder de seducção de que este dispunha que, sendo o posto que ia occupar sobremaneira ingrato, pouco depois de alli estar tinha conquistado as boas graças do Rei, da Rainha, dos cortezãos, e tornara-se o mimalho da sociedade franceza.

Não era isso empreza facil se pensarmos que Francisco I tinha sobejos motivos de aggravo da nossa côrte, que bem penosos eram para o seu orgulho, pois sentia a politica portugueza toda inclinada a Castella. Carlos V o adversario feliz, casára com uma filha do El-Rei D. Manoel, a doce Imperatriz Isabel; e D. João III depois de rejeitar Carlota, a filha de Francisco I, casára com D. Catharina, irmã do Imperador...

Acertadamente procedia portanto o Rei de Portugal escolhendo, para o representar em Paris, o insinuante e intelligente fidalgo. Teve este durante a sua estada em França uma melindrosa missão. D. João III destinara sua filha D. Maria ao filho de Carlos V, Filippe, o futuro Diabo do meio dia.

Francisco I não podia olhar com boa avença este consorcio que mais ia engrandecer o detestado competidor. O Rei de Portugal, querendo evitar complicações, julgou preferivel não dar d’isto conhecimento ao monarcha francez. Nem mesmo chegou a consultal-o.

A noticia, porém, voou até Pariz, e foi sabida na Côrte, antes que D. Francisco de Noronha a farejasse. O Embaixador passou por isso um mau bocado.

A scena que o chronista Francisco de Andrade nos deixa adivinhar é caracteristica e pittoresca.

De uma vez que o representante portuguez foi ao Paço, onde tinha facil accesso e onde era recebido com «muyta festa e bom gasalhado» notou que a atmosphera aulica tinha arrefecido subitamente. «Viu no Paço tão notavel differença que até nos lacaios se enxergava muito claramente. Porque a gente franceza é a que mais se transforma ao gosto ou desgosto de El-Rei.»

Penetrou no emtanto até junto do soberano, que encontrou com sobrecenho, e de aspecto carregado. Pelas salas e antecamaras a frieza dos cortezãos annunciava-lhe borrasca. Não conhecendo a causa d’aquella novidade, o sobresalto não foi pequeno, sobretudo quando Francisco I, não podendo conter a colera que lhe invadira o animo, o levou para o vão de uma janella, onde, com palavras asperas, o increpou desabridamente. Queixava-se do procedimento do Rei de Portugal que, estando com elle em paz, fôra casar a filha com o herdeiro do seu maior inimigo, sem ao menos lhe dar as razões porque o fizera.

O Embaixador que nada sabia, e que carecia de instrucções para proceder, ficou engasgado. Mas não se desconcertou. Foi deixando explodir a sanha do irritado monarcha, emquanto reflectia na attitude que melhor convinha tomar.