Recordemos esse pequeno romance, seguindo o proprio Moraes, que n’elle foi heroe e chronista, e percorramos não só aquelle escripto em que nos deixou a sua confidencia, mas tambem a carta dirigida ao Conde de Linhares, onde encontraremos uma scena flagrante das recreações algo desregradas das damas da côrte franceza.

Desculpa de uns amores... é o titulo com que foi divulgada a curiosa declaração.

Desculpa? N’esta confissão, especie de auto-biographia amorosa, que alguem já comparou ás de Rousseau, por se comprazer em mostrar-se á posteridade n’uma postura de geito ingrato, o nosso Moraes é tão ingenuamente sincero, que não extranhamos que quizesse como que desculpar-se de, em edade já avançada, se deixar envenenar pela amorosa pestilencia distillada nos olhos maliciosos da escarnicadeira Torcy.

Para um meridional facilmente inflammavel, como era o thesoureiro particular de D. João III, que no seu proprio dizer tinha «a condição namorada como em especial a tem os Portuguezes» e já anteriormente se sentira muitas vezes tomado de amores, era perigosa aquella creatura formosa, loureira, voluvel, e prezada do seu parecer, que estonteava todos os cortezãos de Fontainebleau, Dijon, Pariz e Melun. Vejamos como operou a feiticeira, e como se deixou captivar o indefenso portuguez.

Reinava em Portugal D. João III pelos annos de mil quinhentos e quarenta e tantos, quando em França o voluptuoso e inconstante Francisco I, aos pés da Duqueza d’Etampes, ou borboleteando entre as mimosas da côrte, esquecia a Rainha Leonor com quem casara, em virtude do contracto de Madrid de 1526, depois da batalha de Pavia.

La Reine Alianor, a irmã de Carlos V, fôra bella, quando na mocidade, as feições do seu retrato, devido ao pincel de Clouet, haviam perturbado de tal sorte a imaginação de El-Rei D. Manoel de Portugal, duas vezes viuvo, e quinquagenario, que, levado de paixão serodia, a roubou ao filho (depois D. João III) de quem estava noiva.

Agora, embora conservasse as linhas da sua belleza (belleza que, diga-se de passagem, um retrato existente em Hampton-Court não deixa suspeitar), começava a envelhecer e faltava-lhe o sufficiente prestigio para segurar o coração e dominar os sentidos do seu inquieto marido, o sybarita Valois, galanteador e artista.

Mas esse Rei, porque era cavalheiroso e magnanimo, rodeava a Rainha, embora imposta por Carlos V, o rival odiado, de uma côrte brilhante. E as damas que a serviam eram as mais illustres e mais formosas de França.

Á casa da Rainha Leonor pertenciam entre outras Madame de l’Estrange, Mademoiselle de Macy, Madame de Telligny, e, a mais que todas perturbante, Mademoiselle de Torcy.