Do lado dos Hespanhoes formaram na primeira fila Salvá e D. Pascoal Gayangos, que foram seguidos por outros criticos e diccionaristas bibliographicos.

Defendendo a origem portugueza, encontrâmos o sabio hespanhol Benjumea, o brasileiro Odorico Mendes, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Pinto de Mattos, o Sr. Theophilo Braga e mais recentemente o escriptor inglez William Edward Purser, que em 1904 publicou um livro digno, a todos os respeitos, de attento exame e de uma gratidão sem reservas por parte de todos os Portuguezes que prezam as glorias da sua terra.

William Purser, em 464 paginas de prosa cerrada, encara no seu Palmeirin of England o assumpto em todos os seus aspectos, e, occupando-se principalmente da controversia, demonstra com argumentos irrespondiveis a origem portugueza da novella que Francisco de Moraes compoz, quando foi a França como Secretario de D. Francisco de Noronha, futuro Conde de Linhares, Embaixador de Portugal.

Não caberia aqui, ainda que me propuzesse extrahir e distilar a quinta essencia do assumpto ou apontar as questões que têm levantado o famigerado romance de cavallaria, bem como as polemicas litterarias a que tem dado azo. O sabio inglez trata de todas. Quem quizer aprofundar o caso terá, portanto, depois de ler os trez volumes do Palmeirim, o que não é tarefa ligeira para o leitor de hoje (pois que o mesmo Purser diz a respeito da novella: a work no one reads) de compulsar vagarosamente a obra do critico.

São de natureza varia os argumentos por elle usados; uns colhidos no estudo intrinseco do romance, outros fundados na chronologia, outros na comparação do merecimento de Francisco de Moraes, da sua cultura, do seu estylo, da situação social que occupou em Portugal e na Côrte de Francisco I, com as individualidades inferiores dos dois Hespanhóes, o Ferrer e o Hurtado.

Um dos mais engenhosos argumentos é o que devemos á paciencia do critico inglez, e que faz parte do capitulo em que coteja as duas versões, phrase por phrase. Prova com elle exuberantemente terem sido os Hespanhóes que traduziram (em estylo, aliás incaracteristico e insipido) o texto portuguez e não Francisco de Moraes que trasladou o de Hurtado.

Purser comparando os dois textos, e fazendo notar que a nossa palavra saudade não tem equivalente em hespanhol, encontrou no Palmeirim de Inglaterra, em portuguez, cincoenta e sete vezes esta palavra e sempre empregada com propriedade. No texto hespanhol é omittida trez vezes, e nas outras cincoenta e quatro é substituida pelas palavras—alegriacuidadogozosoledaddeseodeleite—etc; evidentemente rodeios para evitar a difficuldade da traducção de uma palavra intraduzivel.

Abençoada seja a benedictina perseverança com que o estudioso inglez catou a prosa de Francisco de Moraes!

Mais uma vez a palavra—saudade—tão nossa, veiu dar uma certidão de naturalidade a uma obra escripta na doce lingua portugueza.

Outro argumento que melhor ainda demonstra essa naturalidade e constitue, por assim dizer, uma prova n’este processo de investigação de paternidade, é o episodio que no Palmeirim de Inglaterra toma os capitulos 137 a 147, em que são descriptas as justas em honra de quatro senhoras francezas, esclarecido pela comparação com o escripto de Moraes, que nas suas obras se intitula: Desculpa de uns amores, que tinha em Pariz com uma dama franceza da Rainha D. Leonor, por nome Torsi, sendo portuguez pela qual fez a historia das damas francezas no seu Palmeirim.