Ainda mais. Um conego engenhoso e atrevido atira uma tarde, do alto do Castello de Lisbôa, em Agosto de 1709, a celebre Passarola, sua invenção, avó veneranda dos modernos Zeppelins. Soffregamente, os Montgolfiers em França affirmam que se haviam antecipado ao nosso Bartholomeu de Gusmão.
E não param aqui os latrocinios.
Recuando um pouco no tempo, topamos com o mais engenhoso romance de Cavallaria que o seculo XVI produziu—O Palmeirim de Inglaterra, lido e relido por cavalleiros e donas, amado por todos os que sentiam ainda na imaginação esvoaçar a pluma ligeira da poesia medieva, e se compraziam em admirar a valentia dos heróes que vencem gigantes e resgatam donzellas prisioneiras. Pois essa novella, que Francisco de Moraes offerece á erudita e talentosa Infanta D. Maria, que durante dezenas de annos desperta em todos os animos masculinos valor e ancia de combates, e em todos os corações de mulher sympathia e admiração pelas proezas dos Palmeirins, Florianos e Dramusiandos, esse quasi poema que ao proprio Camões inspira a Tenção de Miraguarda, tambem tem sido regateado á gloria do seu auctor, attribuindo-o até a outros Portuguezes. Assim, o proprio Cervantes, ao dar o golpe mortal na Cavallaria Andante, quando figura na livraria de D. Quixote o barbeiro e o cura condemnando á fogueira os livros culpados da exaltação do engenhoso manchego, e exceptuando por serem excellentes o Amadis e o Palmeirim, refere-se a este ultimo dizendo: «este libro, señor compadre, tiene autoridad por dos cosas: la una por que él por sí es muy bueno; y la otra, porque es fama que lo compuso un discreto Rey de Portugal.»
Um Rei de Portugal? D. Duarte diziam uns, D. João II diziam outros sem grande attenção pela chronologia e sem grande senso critico. Como se ao melancholico filho do Rei D. João I sobrasse tempo depois de escrever o Leal Cavalleiro ou o Livro da Ensinança de bem cavalgar toda sella, para se embrenhar na narrativa das extraordinarias aventuras, que se emmaranham nos 172 capitulos do famoso romance. Ou como se D. João II, entre os festejos de Evora e o proseguimento de sua empreza governativa, tivesse disposição e embocadura litteraria para se comprazer na tarefa de explicar como o cavalleiro do Dragão desencantou Leonarda, e como a mesma Leonarda foi tambem desencantada pelo sabio Daliarte.
Mas não é essa competencia, que mais affronta a paternidade do nosso Moraes. Cervantes, que não era um erudito ou um bibliophilo, attribuiu ao Palmeirim aquella origem, e ainda assim fallando pela bocca do Licenciado.
Outros Hespanhoes, porém, viriam disputar em favor de compatriotas seus, a proveniencia do notavel romance ao imaginoso Thesoureiro de El-Rei D. João III.
Depois de mais de dois seculos de incontestada naturalidade portugueza, apparece, em 1826, o livreiro-bibliophilo D. Vicente Salvá, que, fugido de Valencia, foi estabelecer-se em Londres, a berrar aos quatro ventos, no seu famoso catalogo, que descobrira uma edição hespanhola do Palmeirim, anterior á portugueza de 1567, e que o seu auctor era um tal Ferrer. Este Ferrer, diga-se de passagem, não foi mais que um modesto mercador de livros, escriba de segunda ordem.
Mas logo depois o filho de Salvá, illudido por um acrostico da edição de 1547, julga descobrir que não foi Ferrer o auctor da obra, mas sim Luiz Hurtado, um poeta menor, incapaz de o escrever por falta de engenho, e por falta de edade. Tinha apenas uns 15 annos.
Dividiram-se então os campos, envolvendo-se os contendores na celebre controversia, e foram com erudição apresentados os mais rebuscados argumentos (alguns fundados em ingenuas subtilezas) para comprovar as asserções com que os de cada nação reivindicavam o Palmeirim.