SUMMARIO

As glorias portuguezas disputadas por estrangeiros. O Palmeirim de Inglaterra attribuido a hespanhoes. Controversias. Os trabalhos de Purser—Alguns dos documentos mais interessantes. A desculpa de uns amôres feita por Francisco o Moraes. A sua paixão pela bella Torcy na Côrte de França. As mimosas de El-Rei. Identificações. Coração ferido. A Infanta D. Maria acolhe benevolamente o poeta. Morte mysteriosa.

É sina das glorias portuguezas verem-se disputadas por extranhos!

Um punhado de aventureiros audazes e sonhadores embarca-se um dia em rudes galeões, em airosas fustas, ou em resistentes carraças e, de longada vae ao mundo revelando novos mundos...

Logo vêm Italianos, Hespanhoes, Francezes, e até Inglezes reivindicar a prioridade dos seus descobrimentos. E comtudo, se da Europa amputassem esta nesgasita occidental que as ondas beijam, e onde os monstros marinhos cantam extravagantes balladas; se supprimissem da Historia o povo que foi seduzido pela mysteriosa Atlantida, pelo mysterio do Preste João, e que, por loucura aventureira se metteu aos mares, o homem não teria tão rapidamente caminhado, a humanidade não poderia tanto a tempo ter-se alastrado pela terra, e muito mais tarde haveria conquistado o globo.

Um cavalleiro portuguez, Vasco de Lobeira, que as ideias de cavallaria andante embriagavam, escreve, na volta do seculo XIV, o seu Amadis de Gaula. E logo a sorte mofina envolve n’uma nebulose o auctor e o romance, de maneira que, conforme diz o Dr. João de Barros nas Antiguidades e cousas notaveis de antre Douro e Minho, «como estas cousas se seccam em nossas mãos os Castelhanos lhe mudaram a linguagem e attribuiram a obra a si.» Deram-lhe como auctor um Montalvo ainda mais indeciso na sua personalidade que o nosso Lobeira.

Um mathematico de genio, que lia nos astros e comprehendia a harmonia das espheras, inventa o instrumento que melhor ajudaria os navegadores a proseguirem na sua rota sem escolhos; e sem detença vem os Francezes com o seu Vernier, pretender que o aparelho d’este precede, se não no tempo, pelo menos nas vantagens, o nonio do nosso immortal Pedro Nunes.

Antonio Ferreira, o culto humanista, rendilha em correctissimos versos soltos a sua Castro, obra prima do nosso cyclo classico.

Pois o plagiario Bermudez não ousou arrogar a si a paternidade da obra, valendo-se da precedencia da edição da sua insipida Nise lastimosa?