Com o seu antiquado pelote de brocado á usança portugueza, tão querido de D. João III, e que tanto destoava das modas francezas, que os amaneirados e dengosos Valois iam introduzindo, sentia-se quasi um anachronismo, desageitado e levemente rustico, entre os requintes das provocantes bellezas das mimosas d’El-Rei.

Essas que elle encontrava na camara da Rainha Leonor, quando era recebido pela virtuosa senhora, interessavam-n’o por motivos varios.

Alli via por vezes a Princeza Margarida filha do Rei e futura Duqueza de Saboya—a mãe do povo—casta e séria no meio da côrte frivola e licenciosa. É esta que Francisco de Moraes, no seu romance, faz figurar com o nome de Gratiamar (filha do rei Arnedos) dôce anagrama de Margarita, da qual Brantôme dizia: «elle eut le coeur grand et haut».

Alli encontrava tambem aquella a que chama a Delfyna, nem mais nem menos que Catharina de Medicis, a esse tempo já casada com o futuro Henrique II.

Conheceu tambem a Duqueza de Montpensier, «que é nova e das famosas d’esta terra».

N’esta palavra famosa ha reticencias, e intenções de interpretação que ficam á responsabilidade de Moraes, bem como no parentesco que lhe attribue, e com o qual deixa transparecer alguns dos maliciosos ruge-ruges, que apodavam como sobeja a amizade d’esta Princeza com o Duque d’Orléans.

Outras muitas attrahiam os olhares do cortezão portuguez, avido de sensações novas, e attrahido pelo espectaculo deslumbrante d’essa sociedade, onde brilhavam como lantejoulas todos os vicios, todas as graças e todas as qualidades da Renascença.

Quatro d’ellas, porém, lhe prenderam os sentidos. E uma os sentidos e o coração.

As trez primeiras apparecem-nos recentemente identificadas com mais ou menos felicidade e segurança pelo escriptor inglez a que já alludimos. MansiTelensi—e Latranja, que figuram no romance, parece serem a representação phonetica de nomes de senhoras francezas, que a pronuncia de um portuguez fazia soar assim.

Mansi, portanto, seria Mademoiselle Macy, depois Madame de Pont de la Haute de Magdelaine, que n’um banquete d’esse anno (1541) figurou á esquerda de Francisco I. com Diana de Poitiers, a Duquesa d’Etampes e a Condessa de Vertus. Era «amada e servida por El-Rei, com o que se ennobrecia muito».