Telensi devia ser aquella «gracieuse Damoyselle de Teligny», de que falla Billon, referindo-se á elegancia agradavel da sua distincta personalidade.
E Latranja é, sem duvida, Mademoiselle de l’Estrange, que fôra amante do Delphim Francisco, (fallecido havia poucos annos) e a quem um poeta aulico chamou n’um epigramma lisongeiro «face d’ange».
Uma, porém, enfeitiçou completamente o nosso Moraes: Claudia Blosset, dame de Torcy; a coquette Torsi «de grão valor»; Torsy a dama da Rainha, a quem Brantôme nas Dames galantes se refere significativamente, dizendo «J’ay ouy conter à Madame Fontaine Chalandry dite la belle Torcy...» Foi a ella tambem que Clement Marot, o poeta da côrte, n’uma das suas saborosas, picantes e espirituosas estrennes, disse:
«Damoyselle de Torcy,
Cest an cy
Telle estrenne vous desire,
Qu’un bon coup vous puissiez dire
Grand mercy.»
De nobre estirpe, pois que descendia da grande familia normanda dos Estouville, figura na Historia genealogica da Casa Real de França, do P.ᵉ Anselme, como filha de Jean de Blosset, Senhor de Torcy.
A nobreza de sangue dava-lhe um ar altivo, arrogante, encaprichado e desdenhoso, que quadrava bem com a sua elevada estatura. Tão alta e tão acima das outras que, quando Francisco I distribuira em 1538 velludo e setim, para que cada uma das damas da Rainha e da Princeza Margarida, fizesse dous vestidos, emquanto vinte e uma d’ellas recebiam apenas dez váras dos preciosos estofos, a Mademoiselle de Torcy foram dadas nada menos de onze.
«Gram soberba (diz Moraes), acompanhava aquellas senhoras e a da Senhora Torsi maior que todas. De mais confiada ou mais cruel todo seu fundamento era na confiança do seu parecer e fermosura: e como de nenhuma outra cousa se quizesse ajudar, suas mostras eram acompanhadas de desdem isenção, e altiveza; e sobre isto esquecida de todos os serviços e vontade, com que lh’os faziam.»
Por estas palavras e por todas que accodem á penna de Moraes, sempre que falla, ficticiamente no romance, de Torsi a dama da Rainha Melicia, ou que se refere, na realidade, a Torsi «gram pessoa», na Desculpa de uns amores... sente-se quanto a soberba creatura o deslumbrava, e que tormentos lhe causou.
A perigosa rapariga manejava com artificio subtil a arma cruel da indifferença affectada, o que, por um phenomeno vulgar em casos de paixão morbida, excitava o temperamento naturalmente arrebatado do fogoso lusitano. «O repouso de Torsi, juntamente com o pouco caso que fez de ver que a olhavam, fizeram n’elles maior massa que nenhum dos outros.» São d’elle (no romance) estas palavras indicadoras do gráo elevado a que ascendera o seu thermometro amoroso.
Ao encanto que o avassallava juntava-se, ainda para o vencer, o cicate inquietador do ciume, farpão de amor, que ella, com a natural perversidade dos animaes felinos, explorava para seu divertimento, dispensando a outros, favores que a elle negava.