De uma vez que a Côrte se dirigia, para assistir ás Vesperas, atravez da galeria de Diana, para a sumptuosa Capella da Trinité, o Embaixador de Inglaterra que, como tantos outros, andava preso das graças da formosa Torcy, e lhe prodigalizava as suas assiduidades, offereceu-lhe o braço. E, conduzindo-a, poz n’isso tanta significação de galanteio que o pobre Moraes sentia estalar o coração vendo-os passar sorridentes e felizes.
De outra vez, entrando n’um aposento, surprehendeu o Duque de Chatillon (Monsieur de Xatillon, diz elle), «gentil homem de edade juvenil, lançado no regaço» da leviana Torcy.
Quando estes casos se davam o romanesco Francisco de Moraes, dilacerado, com o cerebro em ebulição e os nervos vibrantes, corria a encerrar-se no quarto e fazia versos. Atirava ao papel, sempre docil e fiel confidente de poetas, a expressão do seu tormento.
As novellas de cavallaria tinham grande acceitação na Europa inteira. Liam-n’as com interesse não só as mulheres frivolas ou sentimentaes mas tambem espiritos sérios, almas voltadas para os horizontes da graça celestial ou da politica dos homens, que tiravam prazer de tal leitura. Santo Ignacio, Santa Thereza, Diogo Furtado de Mendonça, o proprio Imperador Carlos V, eram leitores apaixonados d’essas maravilhosas bugigangas.
Francisco I fôra educado quasi exclusivamente com a leitura de romances de cavallaria andante. Sire de Boissy dera-lhe a beber desde creança um leite capitoso, com a licção dos Amadis e quejandos, que geravam muita acção heroica e muita exaltação amorosa. A alma do complicado Valois, assim formada, encaminhou-o na vida, que para elle foi um verdadeiro romance de aventuras.
O Secretario da Embaixada portugueza, cuja phantasia era povoada tambem pelos heroes das fabulas cavalleirosas, e pelas aventuras romanescas, encontrou-se assim n’um ambiente propicio á expansão da sua actividade sentimental. Imaginou então fabricar elle proprio façanhas, descrever acções heroicas, exaltar rasgos amorosos... Emprehendeu escrever o Palmeirim de Inglaterra.
Levava-o já adeantado quando o fulminou a paixão pela formosa dama da Rainha Leonor. N’essa altura introduziu na traça do romance o episodio das quatro Senhoras. Como vingança? Como desabafo? Como homenagem? É difficil sondar á distancia de mais de trez seculos a alma do namorado poeta, e procurar nos escaninhos mais fundos do seu ser os sentimentos que dictavam os periodos em que faz figurar a bella desdenhosa. Entretanto esses dez capitulos cotejados com o escripto intitulado Desculpa de uns amores... são um valioso auxilio para o conhecimento da psychologia do auctor, e uma prova de ter sido por elle escripta primitivamente essa obra, cuja paternidade os Hespanhoes reclamaram.
Mas não é nosso intento agora entrar na controversia.
Voltemos aos quartos da Rainha Leonor, onde Francisco de Moraes encontrava a linda Torcy, seu enlevo e seu tormento.